Quiet creature on the corner, de João Gilberto Noll

Cristiano Rodríguez Batista
Universidade de Campinas (UNICAMP)
cristianorodriguez@gmail.com

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Noll, João Gilberto. Quiet creature on the corner. Trans. Adam Morris. Two Lines Press, 2016.

 

libro-1Quiet creature on the corner é a tradução do quinto romance de João Gilberto Noll, realizada pelo tradutor Adam Morris e publicada em Maio de 2016. A publicação marca a apresentação do escritor brasileiro ao público americano.

O quieto animal da esquina apresenta um narrador com características bem comuns nas obras do escritor gaúcho, mas que possui as suas particularidades. A narrativa acompanha um jovem poeta desempregado em uma deriva pela cidade, sem qualquer plano para o próprio futuro aliado a um apagamento gradual do passado, marcado pelo afastamento em relação a estruturas sociais consolidadas.

Ao perder o emprego, o poeta desenvolve o costume de ocupar o tempo andando pelo centro da cidade. Após uma situação que o leva à prisão, uma família rica, descendentes de alemães, o acolhe depois de um período em uma clínica. Muito pouco é exigido em troca do acolhimento, a não ser a obediência a certa organização oculta que impera no cotidiano no casarão, que incluiu calar-se diante de certas incompreensões. O poeta ainda chega a pensar remotamente na possibilidade de sair daquele seio familiar e enfrentar o mundo em chamas que há fora da fortaleza alemã, mas não o faz. Quando integrantes do Movimento dos Sem-Terra se aproximam da propriedade onde ele está abrigado, ele prefere fechar a persiana. Num momento em que vai a Porto Alegre e há a iminência da chegada do candidato à presidência na eleição de 1989, Lula, para discursar em um comício, ele deixa o local para ter a sua primeira relação sexual com um negra. Entre questionar e viver as consequências que resultam das possíveis respostas ou calar-se, ele prefere a segurança e aceita, em silêncio, a ordem que impera naquela propriedade.

A música e o ritmo poético são pontos importantes para a narrativa de Noll. Os narradores costumam seguir um ritmo narrativo que acompanha o caminhar sem destino que eles empregam pelas cidades ou pelas ações descritas como se a tarefa ali fosse preencher o tempo com palavras – como o narrador de Rastros do Verão (2008) chega a dizer. Todo esse movimento é marcado por encontros fortuitos ou intervalos breves. O ritmo é algo constitutivo na ficção nolliana e fundamental para entender as principais questões que Noll discute em sua obra, inclusive aquelas acerca dos limites da linguagem e da representação.

Além de fazer um bom trabalho no que diz respeito à recriação na Língua Inglesa do enredo e da atmosfera criada a partir da visão que o poeta tem das coisas, a tradução de Adam Morris recria, também, um ritmo narrativo que acompanha as formas de ocupar o tempo que o narrador desenvolve ao longo de O quieto animal da esquina. Como podemos comparar no exemplo a seguir,

Uma cerração, botei as mãos nos bolsos e saí a caminhar, alguns pardais comiam a bosta ainda quente de um cavalo que se afastava por um pasto, vi uma barra de ginástica, corri, dei algumas cambalhotas em volta da barra, me pendurei pelos braços, algumas flexões até a altura do pescoço, prenúncio de suor, com os braços esticados me balancei, por fim, saltei, resvalei, caí, bato a mão na outra, me levantei, corri, subi numa pequena elevação, percebi que do outro lado, ao pé da elevação dois homens lutavam, e eram Kurt e Otávio estes dois homens, mesmo naquela cerração dava pra ver que estavam machucados aqui e ali, sangue num canto da boca de Kurt, no ombro, do braço de Otávio escorria um fio que daquela distância coberta de cerração se mostrava mais preto que vermelho. Eles lutavam em silêncio, às vezes caíam e rolavam juntos, se feriam mais (Noll O, quieto animal 27).

Com a sua respectiva tradução,

A fog. I put my hands in my pocket and went out for a walk – a few swallows were eating the still-warm shit of a horse that was wandering away through the pasture – I saw a gymnastic bar, ran, did a few somersaults around the bar, hung by my arms, did some chin-ups, broke a sweat, swayed with my arms stretched out, finally jumped off, slipped, fell, clapped one hand against the other, got up, ran, went up a small hill, saw that on the other side two men were fighting at the foot of the hill, and those two men were Kurt and Otávio. Even in the fog I could tell they were wounded here and there, blood at the corner of Kurt’s mouth, on his shoulder, and down Otávio’s arm ran a thread that, from that distance thick with mist, looked more black than red. They were fighting in silence, sometimes falling and rolling together, hurting themselves even more (Noll, Quiet creature 34).

Os intervalos na narrativa obedecem a um padrão rítmico que foram recriados nas escolhas sintáticas e na pontuação adotadas na tradução inglesa. Morris consegue criar um padrão no Inglês para o ritmo que configura a narrativa nolliana como uma prosa poética. É possível ver o padrão se reproduzir nos monólogos construídos em parágrafos mais longos, nos quais o tradutor opta pelo período inicial mais curto, marcando a circunstância que cerca a ação, e mais um intervalo separando o segundo período ao meio antes do período que finaliza o parágrafo. Portanto, além da recriação do universo ficcional de João Gilberto Noll no Inglês, seria possível dizer que elementos sutis, mas extremamente significativos, também receberam a atenção que merecem ao se pensar em traduzir uma obra do escritor João Gilberto Noll.

Por último, vale mencionar que a escolha específica de O quieto animal da esquina para ser a apresentação do escritor gaúcho para os leitores americanos também foi acertada. Como pontua Idelber Avelar em “João Gilberto Noll e o fim da viagem”, o volume em questão marca um momento ímpar em que o narrador ainda se debate entre ir atrás da experiência significativa ou fugir e se abrigar dos perigos e das questões. Ao fim da obra, o leitor anglófono entenderá qual foi a escolha do narrador e entenderá como se constitui os narradores dos romances que foram lançados depois desse.

Conferir outros exemplos nas páginas 29-30 e 94, na tradução, e suas respectivas correspondências nas páginas 23-24 e 69, no original.

 

Bibliografia

Avelar, Idelber. “João Gilberto Noll e o fim da viagem”. Travessia: Revista de literatura 39, 1999, pp. 167-192.

Noll, João Gilberto. O quieto animal da esquina. Rocco, 1991.

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