Sou eu mesma, minha senhora!: Relações de gÊnero e solidariedade em Margarida Pestana  de Lima Barreto

Maria Sandra da Gama

Universidade do Estado da Bahia

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Resumo

O presente texto resulta do estudo da viúva Margarida Weber Pestana e sua relação com as mulheres da família dos Anjos, personagens do romance Clara dos Anjos de Lima Barreto. As análises construídas no trabalho abordarão o tema das relações desiguais de gênero, bem como a emergência da solidariedade entre mulheres. Assim, apresentamos a personagem à epígrafe, localizando sua origem e condições étnica e econômico-social, traçamos seu perfil psicológico, sua inserção e modos de vivência na comunidade suburbana em que morava. Sem perder de vista a necessidade de evidenciar a conexão entre vida e obra, examinamos o contexto da produção da escrita do romancista procurando dar destaque ao que o escritor fazia funcionar, por meio de suas elaborações inscritas na referida personagem, tanto em relação à mulher quanto em relação a seu projeto literário e de vida.

Palavras-chave

 Lima Barreto, Margarida Pestana, relações desiguais de gênero, solidariedade.

Abstract

The present text results from the study of the widow Margarida Weber Pestana and her relationship with the women of the family of Anjos, characters of the novel Clara dos Anjos de Lima Barreto. The analyzes constructed in the work will address the theme of unequal gender relations, as well as the emergence of solidarity among women. Thus, we present the character to the epigraph, locating its origin and ethnic and economic-social conditions, tracing its psychological profile, its insertion and ways of living in the suburban community in which it lived. Without losing sight of the need to highlight the connection between life and work, we examined the context of the novelist’s writing production, seeking to highlight what the writer worked, through his elaborations inscribed in the said personage, both in relation to the woman and in relation to his literary and life Project.

KeyWORDS

Lima Barreto, Margarida Pestana, unequal relations of gender, solidarity

 

Introdução

O escritor Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro a 13 de maio de 1881, e adentrou no universo da escrita ainda na juventude no período em que cursava Engenharia na Escola Politécnica e colaborou no jornal estudantil A Lanterna no qual assinou alguns artigos e matérias com os pseudônimos “Momento de Inércia” e “Alfa Z” e dava, assim, os passos iniciais na direção de sua futura carreira de cronista do cotidiano nos muitos periódicos para os quais escreveria ao longo de sua carreira.

O contexto da produção de Barreto coincide com o das lutas feministas – dos primeiros anos do século XX –, pela reivindicação de direitos para as mulheres, cuja agenda versava, principalmente, na tentativa da conquista do sufrágio universal e do ingresso delas no espaço público como funcionárias das repartições. Nesse momento o escritor compunha os quadros do funcionalismo como escriturário da Secretaria do Ministério da Guerra, função hierarquicamente abaixo da que almejava para si, e tentava ascender na carreira numa época em que o estigma da cor precedia o talento e qualificações necessárias para as progressões funcionais. Lima Barreto trazia no próprio corpo sua ascendência afro-brasileira, como integrante de uma família de descendentes de escravos, assim, sentia na própria pele as dificuldades de ampliação dos espaços de inserção da população negra e mestiça.

Nessa medida, em algumas de suas crônicas Lima Barreto registrou críticas ao feminismo em curso, nelas, ele criticava, sobretudo, o caráter elitista das reivindicações, já que as mesmas não focalizavam as mulheres pobres, negras e mestiças. Neste aspecto, o escritor se dizia antifeminista em virtude das implicâncias que nutria pelas mulheres à frente de tal movimento.

A produção do autor, além do vasto número de escritos jornalísticos se compõe, também, de textos ficcionais como contos, sátiras e romances como Recordações do escrivão Isaías Caminha, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, Numa e a Ninfa, Triste fim de Policarpo Quaresma, Clara dos Anjos. Sua obra E é sobre personagens desse último, que as análises lançadas no presente texto se ocuparão.

As implicâncias de Lima Barreto quanto às “mulheres emancipadas” do Rio de Janeiro o fizeram empreender esforços na produção de figuras femininas, em sua ficção, sobretudo, distantes das práticas que observava e criticava no feminismo em curso. Tal esforço se vinculava também às tentativas do escritor em realizar uma literatura diferente da do gosto dominante ditado pela oficialidade literária.

Nessa busca, Lima Barreto procurou transmutar a realidade experienciada criando “suas mulheres” na conexão com os princípios éticos nos quais se empenhara desde quando irrompera no cenário da escrita. Sobretudo porque em seu ideal cultivado de arte, acreditava que os espectadores de produções literário-sociológicas como as que ele escrevia, ou as de outros escritores de mesmo horizonte de expectativas comuns ao seu – graças à confiança que devotavam em seus fazeres artísticos e na esperança de diminuírem as desigualdades na distribuição de oportunidades –, poderiam transformar os próprios modos de existência, a partir da elaboração de mecanismos capazes de fazerem-nos resistir às situações de negação e isolamento em que muitas vezes eles se encontravam, conseguintes dos nexos estabelecidos entre as leituras dos textos e do mundo concreto ao redor (Levy 136) .

Desse modo, o escritor buscou criar novas possibilidades do mundo feminino, capazes de promover a transformação dos códigos morais vigentes, nesse movimento, realizou a saída para fora de si. Tal operação, efetuada por ele, permite aproximar o estudo de seus textos, da apreensão dos mesmos, construída, por Osman Lins em Lima Barreto e o espaço romanesco. Para esse estudioso, os traços marcadamente autobiográficos presentes nos escritos barretianos se constituem em recursos narrativos, pois sua obra, “é toda ela voltada para fora, para o mundo imediato e concreto” (Lins 29).  Nessa perspectiva, o romancista construiu personagens que, se não romperam totalmente com os estereótipos dominantes, em alguma medida, ao menos, conseguiram abrir fendas nas fronteiras dos lugares sociais prescritos para as mulheres no transcurso de sua produção.

Nessa perspectiva, uma das figuras em deslocamento com as restrições normativas, que compõe a galeria das mulheres da ficção barretiana, é Margarida Weber Pestana, personagem do romance Clara dos Anjos que, em oposição aos perfis de Clara e Engrácia dos Anjos, é uma mulher altiva, de temperamento disposto e uma lutadora, que garantia sozinha o sustento familiar com os rendimentos de seus trabalhos manuais.

 

Margarida Weber Pestana: origens

Dona Margarida, como informa o narrador do romance, nasceu na Rússia, sendo filha de pai alemão e mãe russa, ficou órfã de mãe antes dos dezesseis anos, tempos depois, a família Weber emigrou para o Brasil em busca de novas possibilidades de vida. Em terras brasileiras, o pai dela foi contratado para integrar os postos de trabalho da construção civil, especialmente nas obras da Candelária no Rio de Janeiro, onde, como “operário fino”, quase como um esculpidor, finalizava a igreja com revestimentos em mármore. Enquanto isso, Margarida administrava a pensão que montara na Rua da Alfândega e que funcionava também como local de vendas de refeições para os muitos trabalhadores das redondezas. Dentre os que se alimentavam por lá, o tipógrafo mulato Florêncio Pestana, despertou o interesse dela, evoluindo para a afeição mútua e, mais adiante, para o casamento entre os dois (Clara 127-128).  

A origem estrangeira de Margarida Weber, suscita uma questão interessante a respeito desse atributo da personagem, provavelmente tal característica se relacione a aspectos do convívio de Lima Barreto com as mulheres brasileiras entre os dois universos por onde ele circulou: o doméstico – e sua circunscrição, com familiares e vizinhas –, e o extradoméstico, particularizado nas mulheres do universo burguês que frequentou desde os tempos de estudante e já homem feito em sua trajetória de literato.

A dupla experiência do escritor nesses espaços, aliada às (re)leituras de autores e da realidade concreta que fazia, provavelmente contribuíram para Lima Barreto projetar um tipo de mulher distante dos dois referentes conhecidos, daí talvez, os aspectos femininos admiráveis sobressalentes  em dona Margarida Weber Pestana, de origem estrangeira e humilde, porém, certamente instruída o suficiente para não se deixar curvar totalmente à incoerência entre sua condição de mulher pobre e as restrições burguesas impostas aos indivíduos, cujo predomínio da dominação se dava sobre as pessoas de seu gênero.

A atribuição da natividade russa, a ela, pode ser sucessiva também da simpatia do escritor pelas ideologias socialistas disseminadas na Rússia – decorrentes da apreensão dele sobre as concepções bolcheviques, impressas nos livros lidos e nos jornais que traziam informações sobre aquele país socialista –, bem como do repertório experiencial do escritor, adquirido no convívio com as mulheres brasileiras que, o impulsionavam a transformar a realidade e a construir outros mundos femininos em sua ficção.

Feitas tais considerações, é importante dar prosseguimento ao estudo da personagem de dona Margarida Weber. Como dito antes, ela se casou com Florêncio Pestana e, dois anos após o casamento, já mãe de um menino chamado Ezequiel, perdera o marido vítima de tuberculose e, pouco mais de um ano depois, o pai dela também se fora, vitimado pela febre amarela. Com filho pequeno para criar, ela seguiu administrando a pensão por um tempo, mas acabou por se desfazer do negócio e, com o dinheiro da venda da casa, comprou uma outra, pequena, nos subúrbios, na qual passou a ser vizinha da família do carteiro Joaquim dos Anjos.

 

Uma viúva nos subúrbios: construindo a (r)e(x)sistência

Tão logo se instalaram nos subúrbios, dona Margarida e Ezequiel passaram a viver do pequeno criatório de aves montado por ela e, principalmente, da renda obtida com os serviços de agulha que praticava, ao bordar e costurar para fora. Nessa jornada, a russa de “temperamento de heroína doméstica” (Clara 127) sem poder contar com o apoio moral ou econômico de parentes, ia garantindo, sozinha, a própria existência e a do filho com dignidade.

Nas primeiras décadas do século passado era muito comum que mulheres viúvas pobres, enredadas pelas necessidades materiais, ou por suas supostas faltas de proteção, por se encontrarem nessa condição, terminassem, muitas vezes, se sujeitando aos domínios de um novo companheiro. Claro que na tomada de tal decisão pesava o fato de ter alguém para diminuir o peso da ausência do falecido marido, bem como ter alguém para contar na hora da divisão das despesas econômicas (Vasconcellos 1999). Mas, tal expediente era, sobretudo, um forte indício da universalização da impossibilidade de autonomia feminina difundida e operacionalizada pelas convenções da moralidade sexual sobre esse universo, cuja eficiência foi inculcada nas amplas visões e instâncias sociais a ponto de tantas mulheres, privadas de participação nos espaços públicos, se sentirem realmente incapazes de conseguirem sobreviver se não fossem tuteladas por uma figura masculina, principalmente, porque, a perversidade de tal sistema dificultava a mobilidade delas para longe das posições dominadas que ocupavam nos espaços privados.

Lima Barreto não situa dona Margarida Pestana como uma mulher ocupante dos espaços públicos, ela transitava nesses ambientes muito mais por força de suas atividades profissionais, para comercializar os bordados e costuras que confeccionava em casa, entretanto, ela é uma personagem construída de modo a esmaecer os códigos morais da oficialidade. Depois de viúva, não se casou ou amasiou com outro homem, e tampouco cogitava fazê-lo e, ao que parece, era uma escolha própria continuar em seu estado de viuvez, pois como sugere seu histórico delineado aqui, Margarida era uma mulher acostumada a deliberar decisões no universo no qual estava inserida, seja dirigindo a antiga pensão ou a “casita” dos subúrbios na qual, com seus serviços de dona-de-casa, e os de bordadeira e costureira, supria as necessidades materiais dela e as do filho.

Se do seu canto, dona Margarida Pestana ia demarcando sua posição de mulher ativa e economicamente “independente” perante a vizinhança, de outro, também convivia com a necessidade de ter que, ela mesma, sair em defesa do pequeno patrimônio que possuía, ou de sua reputação moral contra o risco de assédio sexual que rondava as mulheres desprovidas de protetores homens, como ela. Sua relativa autonomia a esse respeito contrariava as expectativas sobre as mulheres previstas nos discursos científico-morais vigentes nas duas primeiras décadas do século passado.  Como é possível se visualizar no ilustrativo episódio narrado a seguir:

O senhor Ataliba do Timbó deu em certa ocasião em persegui-la com ditinhos de amor chulo. Certo dia, ela não teve dúvidas: meteu-lhe o guarda-chuva com vigor. À noite, no intuito de defender as suas galinhas da sanha dos ladrões, de quando em quando, abria um postigo, que abrira na janela da cozinha, e fazia fogo de revólver. Era respeitada pela sua coragem, pela sua bondade e pelo rigor de sua viuvez ( Clara 128).

No enunciado, o narrador traz para o centro do fragmento as qualidades da personalidade de dona Margarida Pestana que a tornavam respeitada perante a vizinhança. E em tal movimento, agrega ao tratamento respeitoso para com as habilidades da costureira o fato de a mesma manter o rigor de sua viuvez, como uma espécie de atestado de validação da índole e capacidade dela para seu livre trânsito na comunidade e, nesse caso, o rigor dizia respeito ao fato dela permanecer sozinha, de manter sua condição de viúva ilibada. Tal aspecto reflete as imposições da moralidade oficial que pesavam sobre a mulher, especialmente, no tocante à sua conduta sexual. De acordo com a construção vigente no imaginário tradicional dominante, como já visto anteriormente, a “boa” reputação feminina estava intrinsecamente atrelada à preservação da sexualidade recatada, independente de estado civil, faixa etária ou condição socioeconômica da mesma.

Michelle Perrot, em ensaio sobre a marginalização de solteiros e solitários na França, no contexto da Belle Époque, observa que a imposição do casamento como único caminho possível para as pessoas do gênero feminino foi responsável pela emergência dos olhares de suspeição sobre a mulher sozinha, consecutivos das noções equivocadas de que a mesma tanto podia ser uma desavergonhada, a viver de seus encantos, por isso tinha seu suposto comportamento reprovado, ou quando não, ser motivo de chacota e zombaria, como no caso da solteirona, em que a mesma era considerada como se fosse de uma espécie improdutiva, cheia de rabugices e, por vezes até histérica.

Entretanto, como salienta a historiadora em sua pesquisa, a solidão feminina, longe de ser compreendida universalmente como uma frustração por não se cumprir as expectativas do protocolo moral em relação a ela podiam resultar de uma escolha deliberada da própria mulher, na qual, podia-se optar em permanecer solteira, seja em atendimento ao “chamado” religioso ou para tentar realizar o sonho de autonomia financeira, ao se optar pelo exercício profissional extradoméstico.

Contudo, tais escolhas não ocorreram sem sobrecargas. Segundo a historiadora, na última tendência apontada acima, o preço imposto pelo cumprimento de tal desejo, muitas vezes, foi o sacrifício da vida privada para a que optou pelo caminho profissional fora de casa, e neste, o celibato se impôs como condição. Em tal circunstância, pode-se incluir, também, a mulher viúva que escolheu administrar “sua solidão, temporária ou permanente, nem sempre desejada, mas talvez preferida em lugar de um casamento pouco atraente” (Perrot 301).

Nessa medida, guardadas as particularidades dos indivíduos, do contexto e espaço estudados por Perrot, a condição de viuvez conservada por dona Margarida Pestana, pode ser aproximada da situação da mulher solteira francesa que, ao escolher investir em sua carreira e diante dos estigmas morais sobre si, assumiu o ônus de sua escolha: a condição de ser celibatária, para poder impor respeito à sua presença nos espaços amplamente dominados pela tradicional visão de mundo masculina. Embora a personagem barretiana esteja circunscrita no universo doméstico, sobre ela também pesava o fato de ter que manter sua honra preservada. Entretanto, apesar de tal fardo moral, a solidão de Margarida pode ser resultado muito mais de uma escolha, pois como apontado anteriormente, dado os diversos fatores que dificultavam a permanência das mulheres sozinhas, muitas vezes as viúvas pobres como ela, recorriam a um novo enlace matrimonial, e esse não é o caso da personagem.

Ao contrário, ela é uma mulher que, em alguma medida foge aos padrões, ao se libertar da imposição de um novo casamento, ao viver sozinha e sem a dependência econômica de um homem. Por outro lado, conforme é possível se apreender no excerto citado acima, ela dificilmente pôde se emancipar dos estigmas construídos pelo imaginário da moralidade sexual conservadora que pressupunham como condição ao respeito feminino, que as mulheres fossem “assexuadas”, não bastando apenas serem “boas trabalhadoras”, como no caso dela. Nessa dimensão, Lima Barreto circunscreve Margarida Pestana em conexão com o contexto da escrita de seu romance, na construção dela, há muito da moral vigente nas duas primeiras décadas da República, todavia, através da personagem o escritor não deixa de denunciar a situação de dependência da mulher ao homem.

Cláudia de Jesus Maia, ao analisar o discurso jurídico-científico em torno da família conjugal em Minas Gerais, entre a última década do século XIX e fins da década de quarenta do século XX, observa que o Código Civil republicano em vigência no Brasil retirava “das mulheres casadas a condição de indivíduo e tornavam-nas juridicamente incapazes e submissas aos maridos” (Maia 92).  O estudo de Maia permite que se faça o diálogo entre a elucidação da autora e a construção da personagem barretiana em apreço. Nessa medida, importa lembrar que, ainda que as relações via-contratos jurídico-conjugais tenham sido menos usuais entre as pessoas dos grupos economicamente desfavorecidos como Margarida Pestana, a legislação não deixava de retratar e ratificar as formas de dominação sobre a mulher que eram praticadas nos múltiplos ambientes sociais, independentemente da classe, etnia e condições socioeconômicas dos indivíduos.

A essa altura, é importante também não esquecer as simpatias de Lima Barreto pelas ideias libertárias de vertentes socialista e anarquista, como as favoráveis às uniões livres e contrárias à subordinação dos indivíduos. Nessa direção, a atitude e comportamento altivo inscritos no perfil de dona Margarida são um modo de o escritor rasurar as convenções do discurso jurídico-científico em torno da mulher. E, talvez, para auxiliar o entendimento de sua intenção junto ao público e torná-la mais plausível ao/à leitor/a do romance ele tenha desenhado-a como uma mulher sozinha, tal aspecto pode decorrer também do fato de que tanto seus leitores, como o próprio Barreto – por mais que pudesse buscar transgredir com o estabelecido –, não eram completamente imunes a todo o repertório contido na moralidade oficial e ideias dominantes em vigência no contexto no qual estavam inseridos.         

 A coragem e bondade, apontadas no perfil de Margarida Pestana pelo narrador, era algo que ela cultivava no convívio entre a vizinhança, sobretudo com as pessoas da casa de Joaquim dos Anjos. Essa última qualidade da personagem não deve, entretanto, ser confundida com docilidade passiva diante das situações vivenciadas por ela, ou mesmo por seus vizinhos, já que, a despeito de sua amizade verdadeira para com a família dos Anjos, particularmente, “julgava-os dóceis demais, como que passivos, mal armados para a luta entre os maus e contra as insídias da vida” (Barreto 286).

Em tal juízo, em relação aos familiares do carteiro, se desvela a sagacidade de dona Margarida, e nessa, está inscrita sua compreensão sobre os comportamentos e atitudes necessários a serem desenvolvidos por aqueles que, como ela, viviam em circunstâncias vulneráveis. Para isso era preciso aprender a manter-se de pé, sem se deixar consumir pelo abatimento imobilizador das ações que poderiam suscitar a desmobilização das forças opressoras que pretendiam confinar pessoas como Engrácia, Clara, Joaquim, ou ela mesma, e tantos outros moradores das redondezas, a condições indignas.

Daí sua firmeza de posicionamentos diante de algumas prescrições normativas de comportamentos femininos, como as que lhe tocavam por ser mulher e viúva, bem como diante de tantos outros acontecimentos cotidianos, ou de episódios imprevistos, como as perdas de seus pais e do companheiro que sobressaltaram sua existência, impelindo-a a direções nas quais, ela muito provavelmente, não imaginara que poderia parar. Nesse procedimento, é possível se verificar a capacidade de iniciativa de “Margarida Pestana que, enviuvando, sem ceitil, adquirira casa, fizera-se respeitada e ia criando e educando o filho […], fazendo tudo prever que [ele] chegaria à formatura ou coisa parecida” (Clara 218-219).

A sagacidade, perseverança e perspicácia como atributos colocados em dona Margarida por Lima Barreto, em grande medida, permitem apreendê-la como um dos ícones da cartografia desejante barretiana que permitiu produzir uma (re)configuração do mundo feminino. Nessa medida, o escritor faz da personagem uma espécie de denúncia das formas como se processava o jogo da dominação sobre a população marginalizada, de como minguava as possibilidades de saída dessas pessoas de tal condição e fixava-as, assim, em posições submissas.

Jogo que se desenrolava, seja pela utilização de mecanismos ostensivos e impeditivos das mobilidades dos indivíduos, ou pela proliferação de normatizações estabelecidas pelos homens com base na moralidade sexual para ser uma das tônicas simbólicas das distinções étnico-sociais e de gênero entre as pessoas, as quais, apesar da imposição das regras se destinarem ao gênero feminino (“Honra” 310-333), foram incorporadas por muitas mulheres de todas as classes e etnias. Sendo assim, o espírito perspicaz de Margarida Pestana pode indiciar a sugestão do escritor para seus leitores, sobretudo leitoras, para que estas, como a personagem, também, aprimorassem suas capacidades de discernimento diante dos fenômenos e situações que as envolviam.  

 

Cooperação e solidariedade

Além de esperta, Margarida Weber Pestana também nutria um forte espírito de cooperação para com os injustiçados próximos a seu raio de ação, para com aqueles de quem gostava ou que necessitassem de algum préstimo seu. Tal espírito, conforme as palavras do narrador, era oriundo, principalmente, de sua ascendência materna, pois nas distantes e geladas terras da Rússia, seus “avós maternos […] andavam sempre às voltas com a polícia dos czares” (Clara 286). Sendo assim, desde cedo ela aprendera, por experiência familiar, sobre as dificuldades de se viver tolhido pelas operações impostas em favor da manutenção de um sistema desigual. Nessa medida, ao vir para o Brasil, ela trouxe na bagagem a ancestralidade humanitária que integrava sua composição, aspecto que “fê-la logo se identificar com a estranha gente que aqui veio encontrar” (286), com linguagens, hábitos e costumes diferentes do seu, mas que logo aprendera a apreciar.

A inscrição de atributos como senso de autonomia e capacidade de tomar iniciativas, inscritos em dona Margarida indiciam elementos de sua conduta elaborados a partir da própria necessidade de sobrevivência. Vivendo num ambiente novo e rodeada de gente ainda por conhecer, num contexto no qual seu gênero sofria toda sorte de discriminação e tendo que, sozinha, dar conta de prover a si e ao filho, Margarida foi se constituindo, nesse processo, uma mulher altiva. No bairro pobre dos subúrbios ela convive com os vizinhos de mesmas condições que a sua, com vizinhas que, como ela, têm sobre seus corpos o estigma da dominação masculina.  

Entretanto, em comparação com as mulheres da família dos Anjos, dona Margarida, por certo, tem um atenuante em relação às opressões sofridas pelas duas vizinhas, pois naquela sociedade sexista e racista, Clara e Engrácia, além de serem discriminadas por conta de seus gêneros sofriam ainda discriminação por serem negras. Esses elementos conjugados são assimilados na percepção da viúva, pois como se poderá acompanhar mais adiante, ao seguir com Clara para a casa de Cassi Jones, e juntas enfrentarem dona Salustiana, Margarida parece jogar com as intersecções entre as diferenças de seu gênero, como se soubesse que para arrefecer a ira da arrogante suburbana que humilha sua jovem amiga, talvez fosse necessário corporificar a própria diferença em relação à Salustiana para demarcar sua defesa em relação à menina dos Anjos (Piscitelli 2008).

 A convivência com a família de Joaquim dos Anjos fez nascer entre ela, Clara e Engrácia um sentimento de amizade e respeito mútuo, sobretudo porque o posicionamento de dona Margarida perante a vida, muitas vezes funcionou como único amparo ao qual recorriam as mulheres dos Anjos, na ausência de Joaquim – o ciclo de relações sociais delas duas era bastante pequeno –, quando se deparavam com situações que solicitavam a tomada de iniciativa de ambas, ou principalmente da esposa do carteiro, já que essa e, por extensão a filha eram muito dependentes das orientações do “homem da casa” em quase todos os assuntos que exigiam algum poder de decisão delas. Nas situações em que não podiam contar com ele, logo saíam em busca do auxílio da vizinha russo-alemã e de suas orientações decisivas.

Os modos de proceder das mulheres e do homem da família dos Anjos estavam tão naturalizados tanto no marido, como na mulher e filha que os três agiam sem se dar conta de que talvez houvesse outras maneiras de existir. Pois, no fundo, Joaquim, Engrácia e Clara haviam introjetado os modelos dominantes de “ser homem” e “ser mulher” em suas atitudes e comportamentos e seguiam, dessa forma, sem aprenderem a questionar o funcionamento das coisas. Sendo assim, cumpriam a posição social que supostamente era dever de cada um: a de marido “chefe” e provedor da casa; a de esposa devotada, boa administradora do lar e zelosa dos familiares; e a de filha recatada e obediente aos pais e aos mais velhos. Seguindo nesse ritmo, o carteiro tinha suas saídas limitadas às idas para o trabalho e, nesse mesmo trajeto, por vezes, passava pela venda de “seu” Nascimento onde deixava lista de mantimentos para serem entregues à Engrácia, depois, em sua residência.

Engrácia tinha inclinação a ser sedentária e, aliada ao cumprimento dos aspectos mencionados acima, complementava o reforço de sua “natureza” doméstica. Assim, pouco se dispunha a sair de casa, como se ao fazê-lo, indo em direção a outros espaços cujos códigos solicitados requisitassem algo mais do que seu limitado arquivo espacial e comportamental, ela não soubesse nem como conduzir a própria vida, e se perdesse do seu mundo. Dessa maneira, mesmo quando precisava comprar tecidos e calçados para os vestuários dela, Joaquim ou Clara, ou ainda para levar essa última a algum divertimento extradoméstico, ela evitava tais saídas. Aspectos que, juntos com o excesso de cuidados dedicados à filha, reduziam também o deslocamento da jovem para longe de seu exíguo ciclo. Entretanto, apesar de restritas, as idas da menina a lugares de recreação, ali mesmo nas redondezas suburbanas, aconteciam:

Isto era raro e só acontecia aos domingos, Clara deixava, às vezes, a casa paterna, para ir ao cinema do Méier ou Engenho de Dentro, quando a sua professora de costuras se prestava a acompanhá-la, porque Joaquim não se prestava, pois não gostava de sair aos domingos, dia escolhido a fim de se entregar ao seu prazer predileto de jogar o solo com os companheiros habituais; e sua mulher não só não gostava de sair aos domingos, como em outro dia da semana qualquer. Era sedentária e caseira (Clara 72).

A informação do narrador enuncia certa ressalva em relação à condução da criação da moça por parte dos pais dela. Desse modo, mais uma vez, o temperamento diferenciado de dona Margarida em relação a eles se destaca. Nessa perspectiva, quando pôde acompanhar Clara em suas saídas dominicais, decerto ela o fez com boa vontade, principalmente, porque em sua apreensão em relação à família dos Anjos, já apontada antes, preocupava-a o fato de que essa última viesse a sedimentar em si, uma personalidade passiva, tolhida e subserviente, impedindo-a de adquirir coragem para enfrentar os percalços impostos às jovens de seu gênero e cor.

Assim, a viúva se tornara uma grande entusiasta da transformação dos amigos vizinhos, sobretudo da filha do casal dos Anjos, por quem tinha apreço e esperança de que, Clara, como jovem, com muito ainda por viver, pudesse se tornar uma pessoa com um pouco mais de discernimento das coisas da vida. Nessa medida, estimula-a com os ensinamentos de seus ofícios profissionais, para que, ao menos financeiramente, ela começasse a aprender a desenvolver um pouco de autonomia, ao auxiliar-lhe com a confecção e venda dos trabalhos manuais.

Entretanto, o entusiasmo da bordadeira e costureira não foi de pronto correspondido, foi necessária a sua insistência junto aos pais, e também à própria jovem, para convencê-los da importância da prática de tal atividade para, dessa maneira, barganhar o consentimento deles a fim de que Clara se botasse a aprender, ou mesmo aprimorar sua base de conhecimento no trabalho com agulhas e, assim, ajudá-la a ganhar alguns trocados pelas próprias mãos por meio da venda dos bordados confeccionados.

Importa sinalizar aqui, sobre as atividades realizadas pelas três mulheres em seus ambientes domésticos, como lavar, cozinhar, bordar, engomar, passar, dentre outras. A execução de tais atividades pode ser vista, de modo sumário, como concorrente na ratificação dos discursos normativos vigentes a respeito da divisão sexual do trabalho que prescrevia a submissão do universo feminino “aos domínios masculinos” (Soihet 367) e ocultava a importância social das “tarefas femininas” praticadas, em grande parte, nos recônditos das casas, ou mesmo as práticas que se relacionavam com o mundo extradoméstico como os ofícios de floristas, quituteiras e mais outro sem-número correlato dos itens que as mulheres comercializavam. Todavia, é importante trazer para a cena que, se Engrácia e Clara, estavam de fato em posição de dependência em relação ao companheiro e pai, ao “homem da casa” Joaquim, em contraposição a elas, dona Margarida, nessa questão monetária, como já visto, se localizava num lugar de relativa autonomia em relação a um provedor, personificado numa figura masculina.

Nessa perspectiva, dona Margarida mais uma vez tem seu perfil diferenciado em relação às outras duas mulheres. A personagem é construída por Lima Barreto como uma mulher pobre que, de seu próprio universo doméstico consegue obter meios materiais que garantem o sustento e a dignidade de condição de vida familiar, graças a seus ofícios realizados nesse domínio, como os serviços de agulha ou a criação de “galinhas, patos e perus” (Clara 128) que vendia. Situações como a de Margarida Weber Pestana eram bastante comuns no mundo concreto das mulheres brasileiras desprovidas de privilégios econômicos nos primeiros tempos republicanos. Segundo, Sidney Chalhoub:

O trabalho remunerado da mulher pobre, portanto, era, em geral, uma extensão das suas funções domésticas, sendo realizado dentro de sua própria casa ou na casa da família que a empregava … . Apesar de estas tarefas serem em geral mal remuneradas, … , muitas mulheres conseguiam sobreviver exclusivamente daquilo que conseguiam obter com seu trabalho; … essa possibilidade … colocava a mulher em posição de relativa independência em relação a seu homem, e ela soube muitas vezes asseverar esta sua condição com altivez (204).

O historiador Sidney Chalhoub, no fragmento acima, centraliza sua análise nas condições de vida das mulheres pobres do Rio de Janeiro da belle époque, especialmente para apontar a diversidade de modos de sobrevivências das mesmas, via desempenho de atividades remuneradas e sugere assim, como em grande medida, tais episódios se traduziam na desconexão entre a experiência concreta delas e a imposição de um modelo feminino universal que as queria submissas ao buscar apagar a multiplicidade existente no mundo das mulheres. Pois, o trabalho delas, de acordo com o pesquisador, ainda que fosse o de realizar tarefas eminentemente femininas, como queria o discurso dominante masculino – por isso mesmo, consideradas socialmente subalternas –, foi um instrumento por meio do qual essas trabalhadoras conseguiram manejar para a conquista de uma relativa autonomia, naquele contexto ainda tão restrito das mobilidades femininas em direção a posições profissionais não dominadas.

Nessa perspectiva, o estudo de Chalhoub permite que se faça uma relação entre as mulheres analisadas por ele, e dona Margarida, a personagem da ficção barretiana. Além dos aspectos apontados antes, como fatores que, de algum modo, a deslocam das características de docilidade e passividade prescritas no modelo de feminilidade imposta às mulheres naquele momento histórico da escrita do romance, as atividades profissionais realizadas por ela, mesmo sem a dedução de sua incessante rotina doméstica, são elementos com os quais Lima Barreto concebe-a como protagonista da própria existência e situa-a fora dos padrões das expectativas da moralidade oficial, desse modo, o escritor, contemporâneo do contexto pesquisado pelo historiador, igualmente, soube captar em seu tempo, a incoerência entre os preceitos idealizados e a realidade concreta das muitas mulheres de condição humilde.

Nessa medida, não é por acaso que dona Margarida se entusiasma com a possibilidade de poder ajudar a filha dos vizinhos a conquistar uma existência menos subserviente. E uma das trilhas na qual ela acreditava que isso pudesse ocorrer, era através do trabalho, ou seja, poder fazer da prática das atividades cotidianas “femininas” um meio de remuneração, por isso solicita, então, ao casal dos Anjos, a aprovação deles e da própria moça para que essa pudesse assessorá-la em seus trabalhos com agulha. Entretanto, como já apontado antes, foi preciso dona Margarida insistir em tal intento para que Clara, finalmente, viesse tanto a ter o consentimento dos pais, como a própria aceitação para praticar tais tarefas. “Não que ela fosse vadia, ao contrário; mas tinha um tolo escrúpulo de ganhar dinheiro por suas próprias mãos. Parecia feio a uma moça ou a uma mulher” (Clara 219).

A compreensão de Clara, bem como a de seus pais a respeito do trabalho remunerado feminino, enunciadas pelo narrador, desnudam mais uma vez, aspectos do repertório presente na visão de mundo elaborada na moral burguesa, e absorvidos por eles. Sendo assim, ainda parecia-lhes estranho que Clara, uma moça “honrada” e de “família”, mesmo dadas as condições materiais e os tempos em mutação em que viviam, também pudesse ser remunerada pelos “serviços manuais” prestados para fora de casa.

Em tal movimento, Lima Barreto aponta no procedimento da família do carteiro como se processava as forças dominantes no tocante à anulação da autonomia das pessoas, ao operarem a modelação dos indivíduos e estacioná-los em lugares sociais pré-determinados, incutindo-lhes limites e funções a partir de muitos indicadores, como os baseados na sexualidade que delimitavam as fronteiras espaciais feminina e masculina, condicionando a subserviência da primeira em relação à segunda.

Nessa perspectiva a família de Joaquim dos Anjos, enredada nas malhas da moral burguesa, faz ecoar o cumprimento das prescrições que demarcavam os lugares “de homem” e “de mulher”. De modo semelhante, Lima Barreto entrelaça à reserva de Clara, ou de seus pais, quanto à possibilidade de a mesma ser remunerada pelo exercício de atividades manuais, a sobrevivência em tempos republicanos, de aspectos do imaginário moralista e elitista colonial que, amplamente, disseminou o preconceito em relação ao trabalho manufatureiro.

Margareth Rago, estudiosa da condição feminina, identifica o trabalho como um dos mecanismos largamente infundido pela visão de mundo dominante para se desqualificar a mulher e sua capacidade intelectiva, consequência do pensamento tradicional conservador cujas centelhas, infelizmente, guardadas as proporções espaço-temporais, ainda insistem em perdurar na sociedade contemporânea brasileira. Pensamento esse que remonta à vigência do regime escravista no País, como é possível se identificar nas palavras da historiadora:

O trabalho braçal, antes realizado em sua maior parte pelos escravos, era associado à incapacidade pessoal para desenvolver qualquer habilidade intelectual ou artística e à degeneração moral. Desde a famosa “costureirinha”, a operária, a lavadeira, a doceira, a empregada doméstica, até a florista e a artista, as várias profissões femininas eram estigmatizadas e associadas a imagens de perdição moral, de degradação e de prostituição (589).

As análises formuladas por Rago auxiliam na construção de trilha interpretativa de dona Margarida Weber Pestana, cujo perfil ativo construído em contraposição às mulheres da família dos Anjos, permite supor que Lima Barreto buscou demonstrar as diferenças existentes no mundo feminino, mesmo no universo das mulheres economicamente desafortunadas. E, por meio da personagem costureira, quis imprimir seu discurso contrário ao das concepções majoritárias que diminuíam e ocultavam a importância do trabalho delas. Desse modo, Margarida Pestana é, por assim dizer, a visibilidade das mulheres trabalhadoras pobres, cartografada pelo escritor, no romance Clara dos Anjos.

A importância concedida pelo romancista aos trabalhos realizados por ela se junta a outras características de Margarida, já mencionadas antes, como sua perspicácia e inteligência. Cabe não esquecer, também, de outra particularidade dela que talvez possa funcionar como vestígio na elucidação do pensamento barretiano: o senso de solidariedade inscrito na vizinha de Clara dos Anjos. Solidariedade essa que dona Margarida Pestana dosava com a firmeza de vontade que buscava desenvolver em si. Desse modo, é possível apreendê-la como uma mulher que sabia racionalizar as coisas, sem anular sua capacidade emotiva.

Como sugere o episódio em que Clara dos Anjos, estando grávida do sedutor Cassi Jones, surge com a inusitada solicitação de adiantamento à professora de costuras, entre perguntas e olhares interrogadores dessa última, a jovem não suporta e termina por confessar, entre lágrimas, o verdadeiro motivo do pedido da remuneração antecipada: pensava em abortar a criança que trazia no ventre. Ao ouvir tal confissão dona Margarida fica profundamente condoída com a situação da moça e dos pais dela, apesar disso, não cede ao choro de Clara em favor da prática do aborto. Sem deixar transparecer a grande pena que estava sentindo, resolve ajudar a filha de Joaquim dos Anjos com as providências possíveis a serem tomadas em tal situação. Seguindo nesse propósito, o primeiro passo indicado é o de irem juntas até a casa do carteiro e contar tudo à dona Engrácia.

Após as devidas explicações, a reação da pobre mulher de Joaquim dos Anjos é cair no pranto convulsivo e se lastimar diante da gravidade da circunstância que se apresentava para sua família. Ao observar, silenciosamente, as lamentações entre mãe e filha, dona Margarida também sente uma imensa tristeza, sobretudo porque via naquele acontecimento, um “quadro desolador do enxovalhamento de um pobre lar honesto” (Clara 288). Depois da confissão feita a Engrácia, o passo seguinte de Margarida e Clara é a ida até a casa da família de Cassi Jones, o veterano arruinador da vida de muitas mulheres daqueles subúrbios, em busca de conseguirem alguma forma de amenizar a situação de desprestígio na qual ele envolvera a moça.

Em comparação com os arredores nos quais residiam Margarida e Clara, a localização da residência da família de Jones fazia parte da área “nobre” dos subúrbios. Tal desnível se dava no plano das edificações das moradias, da pavimentação das ruas, da cromática da pele dos que moravam nessas casas, bem como de outros tantos itens das gradações hierárquicas existentes entre os habitantes das cidades, nos quais também se acomodavam certas rivalidades entre os moradores suburbanos. Assim, qualquer traço de diferenciação identificado, muitas vezes, era utilizado por quem morava “melhor” como recurso para julgar-se superior aos demais. Esse era o caso de dona Salustiana Baeta de Azevedo, a mãe do violeiro sedutor, Cassi Jones.

Dona Salustiana tinha ares de mulher superior perante a vizinhança, pois se sentia orgulhosa de possuir um irmão médico-capitão do Exército, por ter estudado em colégio interno administrado pelas irmãs religiosas. E, ainda, por sua suposta descendência de certo Lord Jones – através da qual se justifica o apelido estrangeiro, adotado pelo filho Cassi –, um antigo cônsul inglês que ocupara o posto nas terras brasileiras.  Ela criara os três filhos, Irene e Catarina e o primogênito Cassi Jones, de acordo com os moldes da dupla moral sexual dominante em vigência nas duas primeiras décadas da República. Desse modo, enquanto as moças foram instruídas dentro dos aspectos normativos prescritos para as mulheres, já amplamente discutidos no primeiro capítulo, em contraponto, Jones, fora criado com a liberdade permitida ao gênero masculino.

Sendo assim, por mais que o filho aprontasse suas estripulias desde garoto, dona Salustiana sempre as relevava. Nas inúmeras vezes que recebeu reclamações de seu filho ela incessantemente retrucou que eram apenas calúnias contra ele. E nesse procedimento, por muitas ocasiões, conseguiu livrá-lo de pagar pelas faltas cometidas e mesmo resguardá-lo do confronto direto com o pai, o senhor Manuel de Azevedo.

É nesse cenário, no qual, Margarida e Clara adentram para buscarem algum entendimento com a família de Cassi Jones sobre o ocorrido com essa última. Salustiana é quem as recebe e, ao ouvir o acontecimento narrado pela professora de costura da jovem, pergunta: “– Que é que a senhora quer que eu faça?” (Clara 291) Nesse momento, Clara dos Anjos, já irritada com o tratamento desdenhoso de Salustiana para com ela que, deliberadamente ignora sua presença no ambiente, responde: “– Que se case comigo” (291). A resposta da filha de Joaquim dos Anjos faz vir à tona toda arrogância e preconceito da mãe de Jones, que em tentativa de humilhar a moça, mira-a com malvadeza proposital e insulta-a verbalmente, perguntando: “– Que é que você diz, sua negra?” (291).  A partir desse momento a altiva Margarida, ao ouvir tal abuso, não se contém calada e intervém com muita energia e em voz alta, em favor de Clara:

– Clara tem razão. O que ela pede é justo; e fique a senhora sabendo que nós aqui estamos para pedir justiça e não para ouvir desaforos.

Dona Salustiana voltou-se para dona Margarida e perguntou, pronunciando, devagar, as palavras, como para se dar importância:

– Quem é a senhora, para falar alto em minha casa?

Dona Margarida não se intimidou:

– Sou eu mesma, minha senhora; que, quando se decide a fazer alguma coisa de justo, nada a atemoriza. Foi calmamente que dona Margarida falou; e à vista dessa atitude, dona Salustiana mudou de tática. Gritou para as filhas:

– Catarina! Irene! Venham cá que esta mulher está me insultando (291-292).

No diálogo entre as duas mulheres mais velhas se sobressai a coragem de dona Margarida Weber Pestana ao enfrentar a postura de “fidalga” da mãe do sedutor de Clara que, com tal procedimento sempre conseguiu afugentar as pobres mães com suas filhas, vítimas dos abusos sexuais cometidos por Cassi Jones, que iam até sua casa reclamar por justiça. Na acompanhante da filha do carteiro Joaquim dos Anjos, o sucesso da velha tática de Salustiana, finalmente, encontrou uma oponente corajosa a ponto de não baixar a cabeça perante os insultos disparados por aquela.

 

À guisa de conclusão

O posicionamento de dona Margarida ao tomar as dores de Clara dos Anjos diante de Salustiana de Azevedo evoca a composição de seu espírito altivo e solidário. Tais características inscritas no perfil da personagem permitem a apreensão delas como traços de questões defendidas por Lima Barreto em seu pensamento, como a esperança em poder assistir relações menos desiguais entre as pessoas, graças a noções e práticas acomodadas nelas a ponto de se construir modos de existência mais solidários e, talvez por isso, fomentador da desmobilização de fronteiras baseadas nos marcadores socioeconômicos, sexuais e étnico-raciais. Assim como o escritor buscou realizar na relação entre dona Margarida Weber e Clara dos Anjos, e como se tentou demonstrar no presente texto.

 

Notas: 

[1]Tatiana Salem Levy, ao discutir sobre a experiência do fora no pensamento do filósofo Gilles Deleuze, escreve: “Abrir o pensamento ou a arte para as forças do fora significa chamar a vida à transformação, colocar em prática estratégias de resistência […], fazer do pensamento e da arte verdadeiras máquinas de guerra. […], para resistir é preciso acreditar neste mundo, ou antes no outro mundo, ‘que faz deste mundo um outro’. […]. O filósofo e o artista são médicos da cultura, aqueles que diagnosticam o que na realidade não se pode mais tolerar e que necessita ser transformado” (Levy 136).

[1] Em carta de 15.10.1911, enviada por Lima Barreto ao jornalista Esmaragdo de Freitas, em agradecimento a artigo desse último, a respeito de seu Isaías Caminha, publicado na imprensa do Recife, o missivista serve-se de argumentos nos quais trata de esclarecer a seu interlocutor as motivações que o levaram a escrever e publicar o livro, em seguida, aponta o que considera seu suposto “defeito” como escritor e romancista no referido romance: a “pobreza de mulheres” posta nele, em tal movimento, escreve: “Para explicar-lhes êsse meu desintêresse pelo sexo feminino, seria preciso explicar-lhe a minha vida doméstica, no colégio interno, na Escola Politécnica, porque (é um elemento) […]. Essa explicação não atenuaria o defeito e talvez não lhe interessasse. Eu ainda teria muito que lhe dizer, mas temo falar muito de mim” (Barreto, Correspondência ativa e passiva 239).

[1] Lima Barreto foi simpático não apenas à ideologia bolchevique, mas também, das ideias anarquistas. O escritor colaborou em periódicos da imprensa operária anarquista do Rio de Janeiro e São Paulo. E foi também, um voraz leitor de escritores russos como Dostoiévski, Tolstói, dentre outros.

[1] Sobre a necessidade das mulheres pobres viúvas, ou mães sozinhas, arranjarem um outro companheiro ver: (Fonseca, “Ser mulher” 510-553).

 

 

Referências:

Barreto, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Penguin Classics: Companhia das Letras, 2012.

———. Correspondência, ativa e passiva. São Paulo: Brasiliense, 1956, v.1.

Chalhoub, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da Belle Époque. Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 2001.

Crenshaw, Kimberle. A intersecionalidade na discriminação de raça e gênero.

http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/09/Kimberle-Crenshaw.pdf.

Fonseca, Cláudia. “Honra, humor e relações de gênero: um estudo de caso”. In: Costa, Albertina de Oliveira e Cristina Bruschini (Org.). Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos; São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1992. pp. 310-333.

———–. “Ser mulher, mãe e pobre”. In: Del Priore, Mary (Org.) e Carla Bassanezi (Coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009. pp.510-553.

Levy, Tatiana Salem. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

Lins, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976.

Maia, Cláudia de Jesus. A invenção da solteirona: conjugalidade moderna e terror moral- Minas Gerais (1890-1948). 2007. 319f. Tese (Doutorado em História)-Universidade de Brasília (UNB), Brasília, DF, 2007. 

Perrot, Michelle. “À margem: solteiros e solitários”. História da vida privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. v.4, pp.287-303. 

Piscitelli, Adriana. “Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. ” Sociedade e cultura, v.11, no.2,jul/dez.2008.pp.263-274.

Rago, Margareth. Trabalho feminino e sexualidade. In: Del Priore, Mary (Org.) e Carla Bassanezi (Coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009. pp.578-606.

Soihet, Rachel. “Mulheres pobres e violência no Brasil urbano”. In: Del Priore, Mary (Org.) e Carla Bassanezi (Coord. de textos). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009. pp.362-399.

Vasconcellos, Eliane. Entre a agulha e a caneta: a mulher na obra de Lima Barreto. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999.

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