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El cantor de la miséria de Jacinto Benavente: O retrato de um poeta que traiu seus ideais

Rodrigo Conçole Lage 

Universidade do Sul de Santa Catarina 
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Resumo: O objetivo desse artigo é analisar a figura do poeta no conto “El cantor de la miséria”, do escritor espanhol Jacinto Benavente. A partir das ideias expostas no ensaio “O autor como produtor”, de Walter Benjamin, nós pretendemos examinar o modo como a narrativa apresenta uma crítica aos escritores que traem seus ideais por vantagens pessoais. Com essa finalidade, dividimos nosso artigo em duas partes. Na primeira, discutimos a questão do papel do escritor na sociedade. Na segunda, analisamos o conto. Em anexo, apresentamos uma tradução acompanhada do original em espanhol.

Palavras-chave: Jacinto Benavente, Walter Benjamin, Papel social, Conto espanhol.

 

Abstract: The objective of this work is to analyze the figure of the poet in short story “El cantor de la miséria”, by the Spanish writer Jacinto Benavente. Starting from the ideas exposed in the essay “O autor como produtor”, by Walter Benjamin, we intend to examine how the the narrative present a criticism of writers who betray their ideals for personal gain. For this purpose, we divide our work into two parts. In the first, we discussed the issue of role of the writer in society. In the second, we analyze the short story. In the annex, we present a translation accompanied by the original.

Keywords: Jacinto Benavente, Walter Benjamin, Social role, Spanish Short Story.

 

Introdução

O dramaturgo espanhol Jacinto Benavente y Martínez, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1922, foi um dos mais importantes autores do teatro espanhol da primeira metade do século XX. Ao mesmo tempo, foi também roteirista de cinema, poeta, cronista e contista. A sua importância dentro da história do teatro fez com que a maior parte dos estudos sobre o escritor seja voltada para sua produção teatral, de modo que o restante dela tenha despertado pouco interesse da crítica. A constatação deste fato fez com que, depois de termos nos dedicado ao estudo e a tradução de suas peças, optássemos por estudar um de seus contos, o El cantor de la miséria, publicado no livro Vilanos.

Como o conto conta a história de um menestrel que, depois de cantar as misérias do mais pobre decide servir a uma princesa, decidimos analisar o modo como o autor trabalha a questão do papel do artista na sociedade. Com esse objetivo, dividimos nosso trabalho em duas partes. Na primeira, tratamos do papel do escritor na sociedade e do valor estético de sua obra a partir da problemática que envolve o debate entre os que defendem o engajamento político e os que militam em favor de uma arte não engajada. Como referencial teórico utilizamos o ensaio O autor como produtor do filósofo Walter Benjamim.

Na segunda, iremos analisar o conto de Benavente examinando o modo como ele, implicitamente, faz a crítica de um determinado tipo de escritor. Para isso, iremos dividi-la em duas partes. Inicialmente, iremos examinar o modo como o poeta atual como um defensor dos mais pobres, como um intelectual orgânico. Na segunda, iremos estudar as transformações que o modo de pensar do menestrel irá sofrer, fazendo com que se transforme em um servo da aristocracia. Assim, iremos, a seguir, abordar a questão do papel dos escritores, e intelectuais e artistas de modo geral, na sociedade a partir de algumas ideias do filosofo Walter Benjamim.

 

1- Discutindo o papel do escritor na sociedade a partir das teses de Walter Benjamim

No ensaio O autor como produtor Benjamin, inicia o texto destacando o fato de que Platão, no diálogo República, ao reconhecer o papel da poesia, expulsou os poetas do Estado, pois a via como algo prejudicial. Ele, então, entende que, “Desde então, a questão do direito à existência do poeta raramente tem sido colocada com essa ênfase; mas ela se coloca hoje” (Benjamin 120). Ele parte do princípio de que o poeta tem um papel a exercer dentro do contexto da luta de classes de modo que “a situação social contemporânea o força a decidir a favor de que causa colocará sua atividade” (120). Ele pode ser tanto um escritor da burguesia quanto um progressista, a favor do proletariado. Contudo, afirma:

O escritor burguês, que produz obras destinadas à diversão, não reconhece essa alternativa. Vós lhe demonstrais que, sem o admitir, ele trabalha a serviço de certos interesses de classe. O escritor progressista conhece essa alternativa. Sua decisão se dá no campo da luta de classes, na qual se coloca do lado do proletariado. É o fim da sua autonomia. Sua atividade é orientada em função do que for útil ao proletariado, na luta de classes. Costuma-se dizer que ele obedece a uma tendência (120). 

Assim, não existiria um poeta neutro. De uma forma ou de outra, mesmo que não tenha consciência disso, ele está a serviço de uma causa, dos interesses de uma classe. Ao mesmo tempo, o filósofo deixa subtendido que a ideia de arte pela arte, de uma arte por mera diversão, ao contrário do que se possa pensar, não é algo revolucionário, do ponto de vista político e social, mas tem um caráter conservador, pois nasce no meio da burguesia. Dentro deste ponto de vista, pode-se dizer que tais ideias não são, nem podem ser, uma criação do proletariado. Mesmo porque, por seu apoliticismo, são antirrevolucionárias.

O que não quer dizer que todo escritor, ao produzir sua obra, faz por motivos ideológicos de classe[1]. Existem os que escrevem por vaidade, pelo desejo de conquistar a fama, independentemente do fato dela lhes trazer ou não riquesa. Vamos encontrar também aqueles que escrevem unicamente por dinheiro, mesmo que muitos escritores tenham morrido na miséria. E temos também aqueles que escrevem por ambição, para serem vistos como intelectuais e exercerem um papel importante na sociedade. E a predominância de uma delas não vai automaticamente excluir as outras, até porque é compreensível que se misturem. Além disso, os interesses de um escritor podem levá-lo a escrever especificamente para outra classe, por diferentes razões.

Assim, nem todos os escritores vão aceitar a ideia de que sua produção literária deve ter como foco um papel social. E vamos encontrar muitos deles no interior do proletariado. Seu único compromisso é com a própria arte, o que gera críticas. As divergências podem surgir porque os escritores não engajados recusam qualquer tipo de limitação não só na própria literatura, mas na arte de modo geral. E elas nascem também porque esses autores tem uma visão negativa do socialismo e do processo revolucionário. O que não impede que escritores engajados e não engajados tenham pontos em comum tanto do ponto de vista estético quanto do político.

Por outro lado, vamos encontrar aqueles escritores interventistas, que estão voltados ao ideal de uma literatura comprometida. O escritor, nesse caso, é politicamente engajado e pensa a literatura como um instrumento de luta política e social, mesmo que isso venha a colocá-lo diretamente em conflito com o poder constituido. Com isso, se torna “a figura daquele que permanece em pé e que abre a boca quando é necessário par intervir, para questionar, para ser detido e até silenciado por opção, mas nunca calado” (Bernar 37). Consequentemente, vamos identificar em sua obra o “fazer poético como exercício de cidadania, com intenção de transformar a ordem social” (Bernar 35). A injustição e a desigualdade social são o motor de sua obra e a indiferença ao que ocorre na sociedade um crime:

Perante a realidade à sua volta, prenhe de conflitos e iniquidades, o criador (com particular destaque para o escritor) não poderá mais dedicar-se exclusivamente às “coisas do espírito”, fechado na sua asséptica “torre de marfim” (expressão que por esta altura vai sendo repetida ad nauseam, invariavelmente com conotações pejorativas) e alheio aos decisivos acontecimentos da sua época. Aquele que pensa é agora chamado à acção. O distanciamento é duramente criticado e a neutralidade é etiquetada de (Henriques 34).

Portanto, na visão de Benjamim e, de modo geral, na de todos os ideais estéticos socialistas, há a rejeição da noção de arte pela arte, de uma arte que não seja motivada por fatores externos (como a política). E, ao mesmo tempo, existe a recusa da chamada arte para as massas, daquela que é vista como mera recreação; daquela que é feita para atender as demandas do consumidor[2]. Ambas seriam fruto da burguesia, não do operariado. Nos dois casos, o autor não é alguém que contribui para a transformação da concepção de mundo do leitor, nem é alguém que o estimula a realização de uma ação crítica.

Deste modo, pelo fato do autor estar ligado a uma classe, aquilo que ele produz vai ser influenciado por isso. O conteúdo de sua obra vai refletir os interesses dela, o que não impede que outros temas não possam ser tratados, mas a forma com que isso será feito e o modo como ela será recebida e entendida pelos leitores será diferente. Ou seja, o público a quem ela está dirigida será diferente. Por fim, alguns críticos, como o próprio Benjamin, entendem que a forma da obra será afetada. Dentro deste ponto de vista, toda obra literária tem, explicita ou implicitamente, um papel político.

Ao mesmo tempo, as discussões sobre essa questão levam ao debate sobre o valor estético de uma obra. O fato de que textos literários politicamente engajados podem ser deficientes, do ponto de vista estético, faz com que muitos escritores e críticos repudiem a ideia de uma literatura panfletária enquanto outros defendem que uma obra politicamente não precisa de outros valores, sendo que alguns não consideram as duas coisas incompatíveis. O filósofo defende a controversa tese de que que “uma obra caracterizada pela tendência justa deve ter necessariamente todas as outras qualidades” (Benjamin 121). Por isso em seu ensaio afirma:

Pretendo mostrar-vos que a tendência de uma obra literária só pode ser correta do ponto de vista político quando for também correta do ponto de vista literário. Isso significa que a tendência politicamente correta inclui uma tendência literária. Acrescento imediatamente que é essa tendência literária, e nenhuma outra, contida implícita ou explicitamente em toda a tendência política correta, que determina a qualidade da obra (121).

O que não quer dizer que as teses de Benjamin não sejam passíveis de crítica. Seja como for, ao examinarmos o papel do escritor na sociedade, nós devemos não só ver os ideais políticos que norteiam o seu fazer literário e o conteúdo de suas obras, mas também a forma em que foram escritas como sendo inseparáveis. Ao mesmo tempo, devemos ter uma visão mais aberta do que é a literatura. Ele defende que o fenômeno literário vai muito além do que hoje chamamos literatura: “Nem sempre houve romances no passado, e eles não precisarão existir sempre, o mesmo ocorrendo com as tragédias e as grandes epopeias” (122).

Assim, ao pensarmos a figura do escritor nós devemos incluir não só os literatos (romancistas, poetas, contistas, novelistas, dramaturgos), mas todos os que escrevem. E como, do ponto de vista literário, vamos encontrar escritores movidos pelas mais diferentes motivações, mas com obras de grande valor, seria redutor escolher um ou outro caso como o paradigma ideal. O reconhecimento dos méritos e deméritos de cada ponto de vista, a nosso ver, é o primeiro passo para uma análise mais precisa da obra de cada autor e de sua atuação na sociedade. A partir da constatação desse fato iremos, a seguir, analisar o modo como Benavente tratou do assunto em seu conto.

 

2- El cantor de la miséria de Benavente: Uma visão crítica do papel do poeta na sociedade

O conto El cantor de la miséria é a segunda das dezoito narrativas que compõem o livro Vilanos, o segundo livro de contos de Benavente, publicado em 1905[3] e reeditado em 1918, sem nenhuma alteração. O primeiro foi o Figulinas, de 1898, que foi reeditado em 1904, tendo sido corrigido e aumentado. Antes de terem sido publicados em livro ele publicou muitos textos nas revistas Blanco y Negro e El Cuento Semanal. Em El cuento español. Del Romanticismo al Realismo, Mariano Baquero Goyanes (177), menciona a existência de um terceiro volume intitulado El criado de Don Juan. Narraciones, que teria sido lançado em 1902, mas não encontrei nenhuma informação que confirmasse a sua existência, de modo que pode ter sido um erro de atribuição. Seja como for, os dois volumes não reúnem a totalidade de seus contos.

No que diz respeito ao conto temos um relato na terceira pessoa, com um narrador heterodiegético, uma característica presente na maior parte deles. Outras características desta diegese, muito comuns nas outras histórias do livro, são o pequeno o número de personagens, que não são descritos fisicamente, e a descrição sucinta do cenário. Como o objetivo de nosso trabalho é analisar o papel do poeta na sociedade e o modo como ele pode se transformar, com o passar do tempo, vamos dividir esta seção em duas partes. Elas o apresentam como um defensor dos pobres e como um servo da aristocracia.

 

2.1- O poeta como um defensor dos pobres

Benavente inicia a diegese apresentando o protagonista, “um dos muitos menestréis de rua, desonestos, desavergonhados, era o poeta avassalador da multidão” (Benavente 17, tradução nossa). Em oposição a uma visão idealizada da figura do artista, principalmente a do que produz uma obra de conteúdo social, o narrador apresenta o protagonista como um mau caráter, mas que era capaz de cativar, dominar, seduzir a multidão, com sua poesia. O narrador aponta para o fato de que. um artista ou intelectual trabalhar em favor dos pobres, não quer dizer que ele não tenha falhas de caráter.

Ao mesmo tempo, ele descreve a multidão que como sendo “sofredora de todas as dores, sem noção do próprio sofrimento” (17, tradução nossa). Portanto, ela precisava de alguém que lhe abrisse os olhos. Apesar dos defeitos do menestrel, a princípio, ele não pensava em servir aos mais ricos: “Desde o amanhecer, errante pela cidade, atravessava as ruas principais, onde a nobreza, o poder, o tráfego, se mostravam insolentes, sem parar para cantar uma só vez;” (17, tradução nossa). Esse tipo de narrativa, normalmente, é chamada de conto social[4], o que alguns críticos rejeitam.

Por exemplo, para Goyanes (423, tradução nossa), “deveriam chamar-se contos mundanos os de Jacinto Benavente, prolongamento na técnica, e temas, de suas comédias. São narrações geralmente dialogadas, finamente satíricas, que refletem vícios e costumes da alta sociedade”. O texto aqui estudado pode ser classificado como mundano não porque reflete os vícios da aristocracia, mas por ter como tema central a corrupção de um poeta das classes baixas que se submete a aristocracia. Contudo, é passível de crítica a afirmação de que se enquadram nessa classificação “quase todas as que aparecem nas series Figulinas (1904) e Vilanos[5] (1905)” (423).

Seja como for, o fato do conteúdo dos poemas do menestrel, cujo nome não é citado, influenciarem os ouvintes, por causa de seu conteúdo social, está relacionado ao fato dele sentir uma genuína revolta diante da insolência da nobreza e de todos os que tinham poder, indiferentes a pobreza, a situação social que levava tantas pessoas a uma situação lastimável de modo que: “[…] ao passar devagar, melancólico contemplador da expansiva agitação, levava na alma indignação e tristeza” (Benavente 17, tradução nossa). Daí o classificarmos como conto social. Consequentemente, podemos dizer que ele tinha o desejo servir o povo, a sua classe social, de ser o que Gramsci chamou de intelectual orgânico:

Então, são orgânicos os intelectuais que, além de especialistas na sua profissão, que os vincula profundamente ao modo de produção do seu tempo, elaboram uma concepção ético-política que os habilita a exercer funções culturais, educativas e organizativas para assegurar a hegemonia social e o domínio estatal da classe que representam (Semenaro 377-378).

O narrador afirma que o povo não tem consciência do estado em que se encontra, o que pode ser visto como uma crítica ao conformismo social da população. Nesse sentido, o poeta, e o artista de modo geral, deveria ser aquele que é capaz de revelar às pessoas as injustiças de que são vítimas e motivá-las a agir. Ou seja, a arte teria uma função social: “A função social (ou “razão de ser sociológica”, para falar como Malinowski) comporta o papel que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de certa ordem na sociedade” (Candido 55).

Por sua vez, a descrição da pobreza da população é reforçada pelo modo como descreve os locais percorridos pela artista, “Nas ruas afastadas do centro, de tenebrosas vivendas amontoadas, pestilentos respiradouros, de seus miseráveis habitantes, cantava o menestrel […]” (Benavente 17-18, tradução nossa). Isso foi feito para indicar que suas canções sinceras, refletiam o que ele sentia: “[…] rodeado de pessoas pobres, ignorantes, esfarrapadas, famintas; algumas vezes o poeta cantava com ira santa, outras, abatido, desconsolado” (18, tradução nossa). A sua ira o levava a denunciar a situação e motivá-los a agir e seu sofrimento, possivelmente, a aliviá-los de sua dor. 

Por fim, o narrador deixa claro que sua obra era dedicada exclusivamente à questão social ao dizer que nunca “cantou sobre outros amores, o poeta «Cantor da Miséria», como lhe chamavam todos. Dama Miséria era sua dama, e nunca teve mais fiel amante” (18, tradução nossa). Ou seja, a miséria da população era seu único interesse, sua única preocupação. A grande questão é que, o fato de um poeta produzir uma obra focada no social não quer dizer que sua mensagem será entendida da mesma forma por todos os que entram em contato com ela. Ela pode, em alguns momentos, chegar a outros grupos sociais que, de uma forma ou de outra, gostarão dela. Foi o que aconteceu no conto:

A filha do rei gostava muito de poesia e, embora cem poetas cortesãos bajulassem continuamente sua vaidade de beleza e de princesa, desejava escutar o poeta de rua de espírito livre, o que satirizava os costumes da corte, o que ameaçava com ruínas e mortes os poderosos, o que não se humilhava a beleza, nem ao poder, nem a riqueza, o enamorado «Cantor da Miséria» (Benavente 18-19, tradução nossa).

Esse desejo terá um papel importante na vida do menestrel, que irá produzir grandes mudanças no seu papel social, o que será objeto de estudo da próxima seção.

 

2.1- O poeta como um servo da aristocracia

Ao falar a respeito da princesa, com um toque de ironia a respeito de seu gosto por poesia (ao citar os cem poetas que a bajulavam continuamente), ele revela como o poeta era conhecido mesmo pelas classes mais altas. Ao saber de sua existência ela desejava ouvi-lo não porque havia ficado sensibilizada com os temas cantados por ele. O que a havia impressionado era seu caráter rebelde, o espírito livre que ele revelava ao desafiar os poderosos e não se humilhar diante de nada. Mesmo que isso não tivesse trazido nenhuma mudança. O fato de satirizar os costumes da corte não fez com que ela os desprezasse e as ameaças de morte e ruína, aparentemente, não a assustavam:

Para o burguês, a poesia é uma distração – mas a quem distrai, a não ser a alguns extravagantes? – ou é uma atividade perigosa; e o poeta um clown inofensivo – embora dispendioso – ou um louco e um criminoso em potencial. A inspiração é um embuste ou enfermidade, e é possível classificar as imagens poéticas – curiosa confusão que ainda persiste – como produtos das enfermidades mentais (Paz 283).

Devido à brevidade da narrativa, não é relatado o que aconteceu, mas o menestrel canta para a princesa: “Por fim, ouviu-o e chorou ao ouvi-lo, e estava tão linda, chorando tristemente tristezas que nunca havia sentido, que o poeta «Cantor da Miséria» pela primeira vez cantou a beleza de uma mulher” (Benavente 19, tradução nossa). O fato de ter aceitado se apresentar para ela, depois de toda a indignação e tristeza diante da atitude dos poderosos pode ser visto como uma traição aos seus princípios, mesmo não tendo sido feita com essa intenção. Mas, o fato de ter decidido cantar a beleza por admiração a sua beleza, foi definitivamente o ponto de ruptura em relação aos antigos ideais.

Podemos ver nesse episodio uma crítica ao artista que se vende, impressionado pelo poder, pelo dinheiro, pelo esplendor e luxo das classes mais altas, ele deseja se inserir nesse meio para também poder usufruir dos mesmos privilégios. Não que ele vá, obrigatoriamente, passar a escrever somente sobre outros assuntos, até porque os temas sociais também são capazes de comover os membros de outra classe, como podemos ver pela princesa “chorando tristemente tristezas que nunca havia sentido,” (19, tradução nossa). O que acontece é que, nesses casos, eles perdem seu papel transformador e se tornam mero entretenimento.

Ao mesmo tempo, vemos um toque de bajulação no modo como ele responde a princesa: “Fiz mal em cantar minhas canções para os miseráveis! Não é melhor comover piedosamente os poderosos que despertar, ameaçadores, os humildes? A partir de hoje cantarei só para vós” (19, tradução nossa). Aqui vemos uma completa rejeição ao seu antigo papel junto às classes mais baixas, pois os miseráveis não deveriam ser despertos. Ele passou a incorporar os valores da aristocracia e, agora, defende a ideia que eles deveriam continuar vivendo cegamente na sua vida de opressão. Os marginalizados não deveriam se tornar ameaçadores às classes mais altas. Ou seja,

o escritor, numa determinada sociedade, é não apenas o indivíduo capaz de exprimir a sua originalidade (que o delimita e especifica entre todos), mas alguém desempenhando um papel social, ocupando uma posição relativa ao seu grupo profissional e correspondendo a certas expectativas dos leitores ou auditores”. A matéria e a forma da sua obra dependerão em parte da tensão entre as veleidades profundas e a consonância ao meio, caracterizando um diálogo mais ou menos entre criador e público (Candido 83).

Consequentemente, há um total afastamento em relação àqueles que tanto o admiravam antes. Por outro lado, com um certo toque de hipocrisia, ele passa a defender que o ideal é  “comover piedosamente os poderosos” (Benavente 19, tradução nossa). Em nenhum momento do conto a princesa declara a intenção de fazer algo pelos miseráveis. É certo que ela se comoveu profundamente, mas isso não levou ao surgimento da piedade em relação aos mais pobres: “Fiz mal em ouvir tanto poeta da corte! O que poderiam dizer-me, senão mentiras lisonjeiras? A partir de hoje tu serás meu poeta favorito” (19, tradução nossa). Pelo contrário, ao chamar o menestrel para servi-la ela só pensava nela mesma.

Assim, a partir do momento em que se pôs a serviço da princesa, a submissão aos novos amos era total: “E deste modo ficou o poeta ao serviço da filha do Rei. Com suas cores e bordadas as armas no peito, sobre o coração, lhe viam cavalgar a serviço da carruagem real” (20, tradução nossa). A posição em que o menestrel se encontrava é uma consequência da visão que as classes mais altas têm da poesia e do poeta, uma distração: “A poesia nem ilumina nem diverte o burguês. Por isso desterra o poeta e transforma-o num parasita ou vagabundo” (Paz 284). Uma visão bem diferente da existente nas classes mais baixas.

Consequentemente, o modo como os miseráveis vão reagir diante do fato de que ele se pôs a serviço dos poderosos vai refletir esse modo de sentir. O narrador deixa bem claro que a ruptura com os mais pobres foi definitiva e que, a traição do menestrel, os marcou profundamente de modo que perderam totalmente a confiança nos poetas: “os miseráveis haviam perdido seu poeta para sempre, e desde então, se algum novo menestrel vinha dizer-lhes: “Ouvi-me, eu sou outro Cantor da Miséria”, ignoravam, desconfiados, tristes, incrédulos…” (Benavente 20, tradução nossa).

Assim, por meio do seu conto, Benavente aponta para o fato de que a traição que alguns artistas (e intelectuais de modo geral), relacionados a uma classe, cometem ou cometeram no passado, tem como consequência o surgimento de uma espécie de anti-intelectualismo, que vai da suspeita a hostilidade aberta. A relação deles com a sociedade na qual estão inseridos, ou com uma parcela dela, é sempre muito variável e pode mudar facilmente dependendo do modo como os eles correspondem ou não as expectativas do público. Sem contar os momentos da história em que eles serão duramente perseguidos como na Revolução Cultural chinesa, por exemplo. 

Consequentemente, o narrador também sofre uma mudança no seu modo de pensar. Essa desconfiança em relação aos poetas faz com que, da admiração anterior pelo menestrel passe a ficar totalmente cético em relação aos poetas. Consequentemente, conclui a diegese dizendo: “Bah! “Cantor da Miséria”, até que as princesas queiram ouvir-te” (20, tradução nossa). Portanto, diante do acontecido, ele também passou a rejeita totalmente a ideia de que existem escritores verdadeiramente engajados, a favor dos desfavorecidos, porque parte do princípio de que eles defenderão um ideal até serem cooptados pelas classes superiores.

Com este final podemos dizer que utor dá ao conto um tom moralizante. Ele faz uma crítica aos escritores que se apresentam como defensores do povo partindo do princípio de que todos seriam, na verdade, arrivistas. Temos, portanto, uma total descrença em relação à sinceridade do engajamento político. Se, em alguns momentosos textos de Benavente tem um caráter de crítica social, como o monólogo Caridad (Lage 1), não se pode negar o fato de que, em algumas obras, o autor também assume uma postura conservadora como podemos ver, por exemplo, na peça Teatro feminista, uma sátira ao movimento feminista, e no conto aqui estudado. 

 

Conclusão

Apesar do pouco interesse que a produção contística de Jacinto Benavente tem despertado nos leitores e críticos nós consideramos que ela é merecedora de maior atenção. Analisando o modo como o escritor tratou da questão do papel social do escritor na sociedade em El cantor de la miséria nós pudemos perceber a agudeza de sua denúncia. Ele denuncia a hipocrisia daqueles escritores que, apresentando-se como defensores dos desfavorecidos, estão em busca de ascensão social. Ao mesmo tempo, expõe o papel corruptor das classes mais altas que buscam aliciar todos aqueles que se opõe a elas. Esperamos que nosso artigo possa despertar o interesse pelo trabalho do escritor espanhol e inspirar outros a estudá-lo.

 

 

ANEXO

 

O cantor da miséria

Jacinto Benavente

 

Na aparência, um dos muitos menestréis de rua, desonestos, desavergonhados, era o poeta avassalador[6] da multidão; da multidão miserável, sofredora de todas as dores, sem noção do próprio sofrimento.

Desde o amanhecer, errante pela cidade, atravessava as ruas principais, onde a nobreza, o poder, o tráfego, se mostravam insolentes, sem parar para cantar uma só vez; mas, ao passar devagar, melancólico contemplador da expansiva agitação, levava na alma indignação e tristeza.

Nas ruas afastadas do centro, de tenebrosas vivendas amontoadas, pestilentos respiradouros, de seus miseráveis habitantes, cantava o menestrel rodeado de pessoas pobres, ignorantes, esfarrapadas, famintas; algumas vezes o poeta cantava com ira santa, outras abatido, desconsolado; Cristo humano sem a divindade do Redentor; outras vezes estrofes sem sentido, mas resplandecentes de harmonia, litanias[7] de amor que penetravam a alma como um aroma de todos os amores, e quando lhe escutavam, apertados em volta dele, devoradores das palavras, os rostos fechados com uma expressão dura de triste ignorância, se esclareciam[8] como subitamente iluminados por uma aurora interior, e para sempre, ungidos pela poesia divina, as palavras sagradas ficavam gravadas em sua face… justiça, piedade, esperança.

Jamais cantou sobre outros amores, o poeta «Cantor da Miséria», como lhe chamavam todos. Dama Miséria era sua dama, e nunca teve mais fiel amante.

A filha do rei gostava muito de poesia e, embora cem poetas cortesãos bajulassem continuamente sua vaidade de beleza e de princesa, desejava escutar o poeta de rua de espírito livre, o que satirizava os costumes da corte, o que ameaçava com ruínas e mortes os poderosos, o que não se humilhava a beleza, nem ao poder, nem a riqueza, o enamorado «Cantor da Miséria».

Por fim, ouviu-o e chorou ao ouvi-lo, e estava tão linda, chorando tristemente tristezas que nunca havia sentido, que o poeta «Cantor da Miséria» pela primeira vez cantou a beleza de uma mulher. Afirmava a princesa que poeta algum lhe havia emocionado tão docemente, e afirmava o poeta que ninguém, como a linda princesa, havia compreendido suas canções.

– Fiz mal em ouvir tanto poeta da corte! O que poderiam dizer-me, senão mentiras lisonjeiras? A partir de hoje tu serás meu poeta favorito.

– Fiz mal em cantar minhas canções para os miseráveis! Não é melhor comover piedosamente os poderosos que despertar, ameaçadores, os humildes? A partir de hoje cantarei só para vós.

E deste modo ficou o poeta ao serviço da filha do Rei. Com suas cores e bordadas as armas[9] no peito, sobre o coração, lhe viam cavalgar a serviço da carruagem real; os miseráveis haviam perdido seu poeta para sempre, e desde então, se algum novo menestrel vinha dizer-lhes: “Ouvi-me, eu sou outro Cantor da Miséria”, ignoravam, desconfiados, tristes, incrédulos…

Bah! “Cantor da Miséria”, até que as princesas queiram ouvir-te.

 

El cantor de la miseria

Jacinto Benavente

En la traza, uno de tantos juglares callejeros, truhanes, desvergonzados, era el poeta avasallador de la multitud; de la multitud miserable, sufridora de todos los dolores, sin sentido del’propio sufrimiento.

Desde el amanecer, errante por la ciudad, atravesaba las calles principales, donde la nobleza, el poderío, el tráfico, mostrábanse insolentes, sin pararse a cantar una vez sola; pero al pasar lento, contemplador melancólico del expansivo bullicio, recogía en el alma indignación y tristeza.

En las calles apartadas del centro, de tenebrosas viviendas amontonadas, respiraderos pestilentes de sus moradores miserables, cantaba el juglar rodeado de pobre gente, ignorante, haraposa, hambrienta; cantaba con ira santa el poeta unas veces, otras abatido, desconsolado; Cristo humano sin divinidad de Redentor; otras veces estrofas sin sentido, pero resplandecientes de armonía, letanías de amor que penetraban el alma como un aroma de todos los amores, y en cuantos le escuchaban, rodeándole apretados, devoradores de las palabras, los rostros cerrados con dura expresión de triste ignorancia, se esclarecían como iluminados de súbito por interior aurora, y para siempre, ungidos por la divina poesía, quedaban grabadas en su frente las santas palabras… justicia, piedad, esperanza.

Jamás cantó de otros amores el poeta «Cantor de la Miseria», como le llamaban todos. Dama Miseria era su dama, y nunca tuvo más fiel amador.

La hija del Rey era muy aficionada de la poesía, y aunque cien poetas cortesanos halagaban de continuo su vanidad de hermosa y de princesa, deseaba escuchar al poeta callejero de libre espíritu, al que satirizaba las costumbres cortesanas, al que amenazaba con ruinas y muertes a los poderosos, al que no se humillaba a la hermosura, ni al poder, ni a la riqueza, al enamorado «Cantor de la Miseria».

Le oyó por fin y lloró al oirlo, y estaba tan hermosa llorando tristemente tristezas que nunca había sentido, que el poeta «Cantor de la Miseria» por vez primera cantó la hermosura de una mujer. Afirmaba la princesa que poeta alguno le había emocionado tan dulcemente, y afirmaba el poeta que nadie como la hermosa princesa había compreendido sus canciones.

– ¡Mal hice en escuchar a tanto poeta cortesano! ¿Qué podían decirme sino mentiras lisonjeras? Desde hoy tú serás mi poeta preferido.

– ¡Mal hice en cantar mis canciones a los miserables! ¿No es mejor conmover piadosamente a los poderosos, que despertar amenazadores a los humildes? Desde hov sólo cantaré para vos.

Y de este modo quedó el poeta al servicio de la hija del Rey. Con sus colores y bordadas las armas al pecho, sobre el corazón, le veían cabalgar al servicio de la carroza regia; los miserables habían perdido a su poeta para siempre, y desde entonces, si algún nuevo juglar venía a decirles : «Oidme, yo soy otro Cantor de la Miseria», pasaban de largo, desconfiados, tristes, incrédulos…

¡Bah! «Cantor de la Miseria», hasta que las princesas quieran oirte.

 

[1] Digo de classe porque vamos encontrar aqueles que têm seus próprios princípios, que não serão necessariamente os de qualquer uma delas, e devido às diferenças, procuram preservar sua autonomia. São os que optam por se colocar ao lado e não dentro delas, num distanciamento criticado por aqueles que consideram tal posicionamento como sendo de caráter elitista. Benjamin, por exemplo, vê essa postura como sendo a “de um protetor, de um mecenas ideológico” (Benjamin 127).

[2] Mas não se pode ignorar o fato de que a literatura politicamente engajada também pode se transformar em uma mercadoria feita para atender as demandas de um setor do mercado, assim como a obra que visa fins meramente estéticos.

[3] Goyanes (El cuento español: del Romanticismo al Realismo 177) erroneamente datou como sendo de 1903.

[4] É um gênero contístico que tem como finalidade a denúncia. Ele aborda questões como as dificuldades enfrentadas pelos grupos sociais desprivilegiados ou pelas minorias, denunciando as injustiças sociais.

[5] Narrativas do Vilanos, por exemplo, como El caballero de la muerte, um conto fantástico; La mula y el buey, que denuncia os vícios da sociedade; El poema del circo e Los clowns, que tem como tema a vida circense e sua relação com o público; Los réditos, sobre a vida de uma comerciante e sua filha; El pecado venial, sobre as tentações sofridas por um santo cenobita, não “refletem vícios e costumes da alta sociedade” (Goyanes 423, tradução nossa).

[6] Utilizado aqui com o sentido de cativar, seduzir, dominar.

[7] A litania é um canto ou prece, feito em série, com que se honra a Deus, a Virgem Maria e aos santos.

[8] Tanto no português quanto no espanhol esclarecer tem, entre outros, o sentido de iluminar algo e o de ilustrar o conhecimento. Benavente parece ter em mente ambos os sentidos. 

[9] O brasão.

 

BIBLIOGRAFIA:

Benavente, Jacinto. Vilanos. 2a Edição. Librería de los Sucesores de Hernando, 1918.

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Paz, Octávio. O arco e a lira. Nova Fronteira, 1982.

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