REPRESENTAÇÃO DE UM GENOCÍDIO INDÍGENA EM “POEMA PARA O ÍNDIO XOKLENG”, DE LINDOLF BELL

Toni Juliano Bandeira
Bolsista CAPES – Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras da Unioeste
tonibandiera@hotmail.com
 

 

O poema intitulado “Poema para o índio Xokleng”, do autor catarinense Lindolf Bell, publicado na obra O código das águas (2001), traz aspectos da história do povo indígena Xokleng, os quais, podemos afirmar, são comum a vários outros povos indígenas brasileiros. A Conquista do Brasil – tal como deve ser a referência a tal fato, e não a “Descoberta” – só foi possível graças à morte de milhares de nativos. Estima-se que a população desses povos em 1500, no Brasil, chegaria a 6 milhões de indivíduos, população que no início do século XX estava reduzida a singelas 100 mil pessoas! (Ribeiro, O povo 145). Este cenário assim se apresenta devido ao genocídio praticado contra esses povos, à invasão e tomada de suas terras pelos colonizadores. O povo Xokleng foi contatado em inícios do século XIX, no estado de Santa Catarina e em poucos anos perderam quase todo seu território tradicional, o qual precisava ser liberado para a colonização por imigrantes alemães e italianos. Vejamos o poema:

 

Poema para o índio Xokleng

Se um índio xokleng

subjaz

no teu crime branco

limpo depois de lavar as mãos

Se a terra

de um índio xokleng

alimenta teu gado

que alimenta teu grito

de obediência ou morte

Se um índio xokleng

dorme sob a terra

que arrancaste debaixo de seus pés,

sob a mira de tua espingarda

dentro de teus belos olhos azuis

Se um índio xokleng

emudeceu entre castanhas, bagas e conchas

de seus colares de festa

graças a tua força, armadilha, raça:

cala a tua boca de vaidades

e lembra-te de tua raiva, ambição e crueldade

Veste a carapuça

e ensina teu filho

mais que a verdade camuflada

nos livros de história.

(Bell 40).

 

Em sua obra Sociologia da literatura, Giovanni Ricciardi escreve que “a obra de arte é, antes de mais nada, documento histórico para situar e compreender o homem nas diferentes épocas e nas específicas situações existen­ciais” (Ricciardi 23). Neste sentido, compreendemos que a obra literária pode contribuir para uma melhor compreensão de determinados fatos históricos, mais do que isso, pode revelar e refletir sobre questões que, muitas vezes, não são tratadas com a atenção que mereceriam, sendo por esse viés que consideramos relevante o poema de Bell de que estamos tratando.

Refletindo sobre a obra de arte, Ricciardi cita Taine, segundo o qual a mesma nunca existe como acontecimento isolado, porque o próprio artista não é uma ilha. Está, pelo contrário, relacionado com escolas, correntes literárias, situações gerais da socie­dade (23). Nas palavras de Taine, para a compreensão da obra de arte ou de artistas, “é necessário conhecer exatamente o quadro geral do espírito e dos hábitos da época a que per­tencem”. Acrescenta ainda que “os produtos do espírito humano, como os da natureza viva, só podem ser explicados pelo meio (Taine apud Ricciardi, 23). Sendo assim, uma possibilidade de entendimento da literatura seria buscar nos aspectos sociológicos a base para compreendê-la.

Dessa forma, é importante que se apresente algumas características linguístico-culturais sobre os Xokleng, tendo em conta que esses aspectos são de crucial importância para o entendimento do poema em análise.

Vários autores, tratando dos Xokleng, a eles se referem como se fossem pertencentes a outro grupo indígena da região Sul do Brasil: os Kaingang. Isso aconteceu devido ao fato desses dois povos possuírem alguns aspectos culturais semelhantes, bem como línguas aparentadas, bastante semelhantes. Esse é o caso, por exemplo, do Dr. Simoens da Silva, que publica no ano de 1930 a obra intitulada A Tribu Caingang, mas a mesma trata dos Xokleng da região dos Rios Plate e Itajaí, do estado de Santa Catarina. Jules Henry torna público em 1935 estudos linguísticos sobre a língua Xokleng que realizou de 1932 a 1934, também no estado de Santa Catarina, no entanto, a publicação intitula-se A Kaingang Text. Portanto, os Xokleng também ficaram conhecidos por várias denominações, entre elas “Bugre, Botocudo, Aweikoma, Xokrén e Kaingang” (Santos, Índios e brancos 30). Apesar da denominação “Xokleng” ser adotada mais usualmente, Gakran (14) informa que nos últimos anos o povo chegou ao consenso de autodenominar-se “Laklãnõ”, “povo que vive onde nasce o sol, ou gente do sol (ou, ainda, povo ligeiro)”.

O povo Xokleng é encontrado apenas no estado de Santa Catarina, onde está a única área indígena dessa etnia no país, localizada a aproximadamente 260 quilômetros da capital do estado, Florianópolis. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2010), os Xokleng somavam na época do recenseamento 1820 pessoas.

A língua Xokleng é falada por uma população não muito grande, das 1820 pessoas recenseadas pelo IBGE (2010) apenas 507 declararam falar a língua, número que não considera as crianças com menos de 5 anos. De qualquer forma, a situação não deixa de ser preocupante para essa população indígena, que vê, a cada ano, diminuir o percentual do número de falantes da língua nativa. Conforme Gakran, todos os indígenas que falam a língua materna são bilíngues, pois utilizam também a língua portuguesa. Portanto, pode-se afirmar que a língua Xokleng está seriamente ameaçada, sendo o contato intenso com os não-índios o fator principal para que se chegasse a esse contexto.

Nesse sentido, o poema de Lindolf Bell é singular para se pensar literariamente a saga do povo Xokleng. O autor nasceu na cidade de Timbó, no estado de Santa Catarina, no ano de 1938. O fato de ser filho de lavradores foi fundamental para que sua poesia fosse permeada por elementos provindos da vida do campo. Em seus escritos, as temáticas mais recorrentes tratam da vida, da terra, da infância, do destino, da solidão, do efêmero, do transcedente, do sonho e da esperança. Bell liderou o movimento chamado Catequese Poética, o qual, por meio de recitais, buscava levar a poesia às ruas, tentando, assim, levar fazer com que o povo pudesse ter acesso à literatura.

A primeira questão que pode ser levantada por meio do poema é em relação às terras tradicionais do povo Xokleng. O antropólogo Silvio Coelho dos Santos, em sua obra Os índios Xokleng – Memória Visual (25) afirma que o povo Xokleng dominava vastas extensões entre o litoral e os campos da região central dos estados do Sul do Brasil. Santos, na referida obra, traça as características gerais do povo Xokleng, as quais possibilitam uma contextualização histórica do poema que aqui se interpreta:

 

A saga dos índios Xokleng é muito particular. No passado distante, sofreram a competição de outros grupos indígenas pelo domínio dos campos do planalto e dos bosques de pinheiros. Depois, vivendo nas encostas do planalto e nos vales litorâneos, viram suas terras serem gradativamente ocupadas pelos brancos. Nesse processo, sofreram as conseqüências de decisões políticas e econômicas, em regra executadas a fio de facão e a tiros de escopeta por experimentados caçadores de índios, os bugreiros. Estabelecidas as relações amistosas com os brancos, iniciaram um difícil aprendizado de convivência que chega aos nossos dias. […] Os Xokleng formavam um povo. Tinham língua, cultura e território que os diferenciavam dos outros povos indígenas, tais como, os Guarani e os Kaingang (Santos 16)

 

Segundo Darcy Ribeiro, “nos primeiros vinte anos da vida republicana nada se fez para regulamentar as relações com os índios” (Os índios 127). No entanto, esse período foi marcado pela abertura de várias frentes de luta contra grupos indígenas até então desconhecidos, fato que se dava pela abertura de estradas e ferrovias na mata, pela navegação dos rios por barcos a vapor ou pelas incursões nos sertões brasileiros levadas a cabo a fim da instalação de linhas telegráficas. Esse contato com as tribos indígenas, muitas vezes forçado, eliminava as possibilidades desses grupos manterem uma sobrevivência autônoma.

Na verdade, é apenas na Constituição de 1988 que os povos indígenas passam a ser reconhecidos pela legislação como culturas específicas, as quais necessitavam condições materiais e apoio sistemático para sobrevirem. Ainda assim, a História continuou sendo contada pelos dominadores, como se denuncia na última estrofe do poema: “Veste a carapuça/e ensina teu filho/mais que a verdade camuflada/nos livros de Historia”. Neste sentido, a literatura tem contribuído de maneira significativa para a desmistificação de muitos dos discursos oficiais da História. Na realidade, a criação literária Latino-america, de modo especial, permite que se revelem muitas dessas historias “camufladas”, sendo o Poema para o índio Xokleng bom exemplo dessas releituras.

Houve um período em que considerou-se o oeste do país como sendo um “vazio demográfico”, e que portanto, precisava ser ocupado. Esta política de expansão agro-pecuária continuou levando o medo para esses povos de pouco contato. A literatura, neste sentido, possibilita leituras que a historia oficial não privilegia, como vemos nos versos que retratam um episódio marcante na trajetória dos Xokleng: “Se um índio xokleng / dorme sob a terra / que arrancaste debaixo de seus pés / sob a mira de tua espingarda”. Sabe-se que a conquista da América só pôde acontecer com conflitos e guerras, com a utilização das armas de fogo e das espadas. Aqui, os rebeldes sempre foram punidos das formas mais severas, qualquer afronta ao Estado sempre foi tratada com crueldade, muitos que protestaram foram mortos, decapitados, esquartejados em praça pública, para servirem de exemplo a possíveis seguidores.

Há, na primeira estrofe do poema, uma referência aos crimes praticados contra os Xokleng: “Se um índio xokleng / subjaz / no teu crime branco / limpo depois de lavar as mãos”. Uma vez mais, consideremos os estudos de Ricciardi, quando o mesmo comenta sobre as ideias de Guyau:

 

A arte, para Guyau, não é um fim em si mesma, sintoniza-nos com a sociedade, é essencialmente repre­sentativa da vida colectiva. A emoção artística, acres­centa, é afinal uma emoção social, pois nos põe em contacto com uma realidade, com uma vida que é análoga à nossa. O artista, portanto, deve olhar e considerar a vida, não como artista, mas como homem, como homem social (24).

 

Assim, para compreender o trecho do poema que acima citamos, é importante ter em conta alguns dados históricos sobre a ocupação das terras tradicionais dos Xokleng, pois é esse o motivo gerador do genocídio que se praticou contra esses indígenas. Na década de 1830, começaram a chegar imigrantes no litoral catarinense, estimulados por políticas do governo nacional. No entanto, essa área era considerada desabitada, ainda que se soubesse da presença indígena, pois, do contrário, os imigrantes não ficariam animados para desbravar aqueles sertões. Com a intensificação da colonização, a partir de 1850, as terras indígenas começam a ser comprometidas, e os índios vão fugindo do contato para regiões ainda intocadas. Chega-se a um momento, porém, em que os Xokleng não têm para onde fugir e, ao perceberem que estavam sendo ameaçados, reagem às invasões, atacando as colônias europeias.

Surge, nesse contexto, uma “profissão”, a do “bugreiro”, cujo trabalho era atacar os aldeamentos indígenas: “As colônias e o governo provincial logo começaram a organizar e remunerar grupos armados que adentravam na floresta com o intuito de dizimar os índios em seus acampamentos. A justificativa oficial era afugentar os indígenas para longe dos lugares habitados” (Santos, Os índios Xokleng 38). Tal trabalho foi financiado pelo governo da então província de Santa Catarina, a partir de meados do século XIX. Conforme registra Santos (Os índios Xokleng 25), “as palavras ‘bugreiro’, ‘caçadores de índios’, ‘tropas’ e ‘montarias’ logo começam a aparecer nos documentos oficiais e no noticiário dos jornais”, oficializando-se, assim, o discurso histórico acerca de tais fatos.

Nesse sentido, apesar de termos como foco central a análise do poema, nos utilizaremos, também, da fotografia como forma de mostrar a crueldade levada a cabo nas relações dos colonizadores com os indígenas. No contato com os Xokleng, houve uma farta documentação fotográfica, principalmente a partir do início do século XX, registros que provam o quanto este contato devastou a sobrevivência física e cultural deste povo. A fotografia abaixo é apresentada na obra de Santos, e mostra uma prática corrente na colonização não só do estado de Santa Catarina, como em várias outras regiões do Brasil.

 

Bandeira 1

Fotografia 1: Bugreiros e suas vítimas.

 

No poema, os versos “sob a mira de tua espingarda / dentro de teus belos olhos azuis” remetem ao papel desenvolvido pelos chamados bugreiros, financiados pelos colonizadores. Os Xokleng, desde os primeiros contatos, em meados do século XIX, sempre representaram aos imigrantes, na sua maior parte de origem alemã, uma ameaça ao “progresso” da região, motivo pelo qual gerou-se um grande debate em nível nacional, sendo que o Serviço de Proteção aos Índios, primeiro órgão a tratar da política indigenista brasileira, foi criado na tentativa de resolver esses conflitos. No entanto, nos primeiros anos da pacificação pelo Serviço de Proteção ao Índio, cerca de dois terços da população contatada na reserva de Ibirama, onde viviam os Xokleng, morreu.

Para dar uma ideia da crueldade com que os índios eram mortos, reproduzimos, abaixo, parte do depoimento que Silvio Coelho dos Santos obteve do bugreiro Ireno Pinheiro, em 1972. No relato, ele comenta como se davam os assaltos nas aldeias, dizendo temer a vingança dos poucos índios arredios que circulavam pela Serra Geral de Santa Catarina:

O assalto se dava ao amanhecer. Primeiro, disparava-se uns tiros. Depois passava-se o resto no fio do facão. O corpo é que nem bananeira, corta macio. Cortavam-se as orelhas. Cada par tinha preço. Às vezes, para mostrar, a gente trazia algumas mulheres e crianças. Tinha que matar todos. Se não, algum sobrevivente fazia vingança. Quando foram acabando, o governo deixou de pagar a gente. A tropa já não tinha como manter as despesas. As companhias de colonização e os colonos pagavam menos. As tropas foram terminando. Ficaram só uns poucos homens, que iam em dois ou três pro mato, caçando e matando esses índios extraviados. Getúlio Vargas já era governo, quando eu fiz uma batida. Usei Winchester. Os índios tavam acampados num grotão. Gastei 24 tiros. Meu companheiro, não sei. Eu atirava bem (Santos, Os índios Xokleng 28).

Assim, quando o eu-lírico do poema relata “lembra-te de tua raiva, ambição e crueldade”, nos faz refletir sobre o modo como se constituiu o “progresso” brasileiro, nas consequências que esse desenvolvimento forçado causou a povos que, há séculos, viviam neste território. No entanto, sobressai-se, em muitos discursos, o orgulho de descendência dos “bravos pioneiros”, quando, na verdade, a ideia de desenvolvimento e progresso é manchada pelo genocídio e etnocídio largamente efetivados.

A compreensão de determinados textos literários passa, muita vezes, por outras áreas do conhecimento além da literatura. Assim:

 

Uma vez que todo o escritor é membro da socie­dade, podemos estudá-lo como um ser social. Além da biografia e das suas obras, fonte primeira e ime­diata para a compreensão de um autor, a análise pode e tem de se estender, em globo, ao meio de que ele provém e no qual vive. […] O escritor é, pois, um criador, mas, ao mesmo tempo, a sua obra está, toda ela, mergulhada no momento histórico que a origina (Ricciardi 80).

 

Em “Poema para o índio Xokleng”, há que se buscar dados históricos, sociológicos, antropológicos, entre outros, para que se possa extrair dele uma boa leitura. Note-se que a partir do conhecimento da história do povo Xokleng torna-se bastante palpável, no poema, o genocídio e o etnocídio que sofreram os índios. Por isso, queremos traçar alguns apontamentos sobre esses dois conceitos.

Em texto intitulado Do etnocídio, publicado na obra Arqueologia da violência – pesquisas de antropologia política, Pierre Clastres trata do surgimento e do conceito do termo, já que ele surge apenas no século XX, sendo formulado para tentar expressar, sobretudo, a opressão europeia sobre os sistemas culturais dos povos indígenas americanos. Antes disso, existiu o termo “genocídio”, criado em 1946 no processo de Nuremberg, para fazer referência a um tipo de criminalidade que pela primeira vez era registrado: o extermínio sistemático dos judeus europeus pelos nazistas alemães (Clastres 77).

No caso da história dos povos indígenas da América, o termo genocídio merece considerável destaque, tendo em vista os massacres contínuos de povos ou comunidades levados a cabo no decorrer do processo de conquista e colonização, ou seja, concretizavam-se verdadeiros extermínios. Chegou-se a um momento, porém, em que etnólogos preocupados com a questão indígena, principalmente na América Meridional, tiveram de formular um novo conceito para representar os fatos que aqui se passavam, isso porque os povos que não sofriam o genocídio estavam fadados a sobrepujança do etnocídio. Acerca desses dois termos, Clastres escreve:

 

Se o termo genocídio remete à idéia de “raça” e à vontade de extermínio de uma minoria racial, o termo etnocídio aponta não para a destruição física dos homens (caso em que se permaneceria na situação genocida), mas para a destruição de sua cultura. O etnocídio, portanto, é a destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição. Em suma, o genocídio assassina os povos em seu corpo, o etnocídio os mata em seu espírito (78-79).

 

Os versos “Se um índio xokleng / emudeceu entre castanhas, bagas e conchas / de seus colares de festa”, podem ser interpretados como o silêncio imposto aos indígenas, a impossibilidade de sobreviver dentro da cultura indígena, configurando-se, assim, o etnocídio.

Em Literatura e sociedade, Antônio Candido (3) afirma que “estamos avaliando melhor o vínculo entre a obra e o ambiente, depois de termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem”. Neste sentido, na obra referida, a autor apresenta elementos que possibilitam um melhor entendimento da relação entre a literatura e os vínculos sociais. Para Candido:

 

Antes, procurava-se mostrar que o valor e o significado de uma obra dependiam de ela exprimir ou não certo aspecto da realidade, e que este aspecto constituía o que ela tinha de essencial. Depois, chegou-se a oposição oposta, procurando-se mostrar que a matéria de uma obra é secundária, e que a sua importância deriva das operações formais postas em jogo, conferindo-lhe uma peculiaridade que a torna de fato independente de quaisquer condicionamentos, sobretudo social, considerado inoperante como elemento de compreensão. Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo (4).

 

Nesta perspectiva, a obra literária deve ser analisada tendo-se em conta sua estrutura, o texto em si, e também considerando os fatores externos, o social, de modo que esses elementos são complementares. Assim, Poema para o índio Xokleng necessita ser analisado considerando-se, também, o elemento social, sem o qual sua leitura pode se tornar bastante superficial.

Durante os ataques às aldeias dos Xokleng, algumas crianças eram levadas para as cidades como prova de que o trabalho do bugreiro havia sido cumprido. Em 1905, a menina indígena Korikrã foi levada para a cidade de Blumenau, sendo adotada por um médico e batizada com o nome de Maria, aprendendo, inclusive, alemão e francês. A fotografia abaixo mostra Maria Korikrã, já adulta, com a família do Dr. Gensh, na cidade de Blumenau:

 

Bandeira 2

Fotografia 2: Maria Korikrã, Acervo Silvio Coelho dos Santos

 

Passados treze anos, quando já haviam sido estabelecidos contatos amistosos com os Xokleng, surgiu a oportunidade de Maria encontrar-se com seus verdadeiros pais, caso relatado por Darcy Ribeiro a partir do depoimento de Eduardo Hoerhan, este, funcionário do Serviço de Proteção aos Índios que mantinha boas relações com os índios. O encontro, segundo o relato, foi extremamente dramático. Hoerhan explicou aos índios que o velho era o pai adotivo de Maria e que a tinha criado com carinho. Entre os índios estavam o pai de Korikrã, uma tia e três irmãos, mas, em um primeiro momento, não lhes é possível reconhecer a indígena, chegam a perguntar a Hoerhan onde ela estaria. Para que se entenda melhor esse trágico encontro, cremos ser interessante reproduzir, ainda que extensa, parte da descrição de Darcy Ribeiro:

 

Os índios observaram-na um instante e avançaram para ela, apalpando-a, incrédulos. Logo alguém se lembrou de procurar a marca tribal, cicatriz de duas incisões feitas na perna esquerda das mulheres, logo abaixo da rótula. Levantaram a saia da moça para procurá-la. Enquanto isso outros lhe arrancavam a blusa, o pai tirava o chapéu e desmanchava o penteado, tentando refazer a imagem da filha tão cedo arrancada de seu convívio… Alguém encontrou a marca tribal e todos se agacharam para ver: kó, kó, – aqui, aqui está… Outra cicatriz produzida por ferimento numa queda, quando criança, foi encontrada no braço, e, então, já não havia dúvidas, era ela. O pai tomou entre as manoplas a cabeça de Maria… e perguntou: ‘você não me reconhece? Eu sou seu pai’. Maria não era só pavor, era mais asco que medo. Beiços pregados não dizia palavra, e o velho implorava e ordenava: ‘fala, você me entende? Fala, fala se me reconhece’. Dr. Gensh, transido de medo, tanto temia pela própria sorte como pela da pupila. A mãe adotiva esgueirava-se horrorizada. Aí o velho cacique larga a cabeça de Maria com um safanão, afasta-se, olha a filha com ódio e diz: Eu estou vendo, você tem nojo de mim, tem nojo de tôda a sua gente…’ (Ribeiro apud Santos, Os índios Xokleng 29).

 

É com base na justificativa do “progresso” e da “civilização” que muitos dos povos indígenas brasileiros foram sendo massacrados durante a colonização, e que não se diga que o termo “massacre” é exagero. Como exemplo, pode-se citar entre inúmeros, o episódio que ficou conhecido como “o massacre do paralelo onze”, quando os índios Cinta-larga, do Mato Grosso, foram presenteados por fazendeiros com açúcar misturado com arsênico, veneno letal. Na ocasião, em 1965, até bombas foram jogadas de aviões, depois indivíduos foram pagos para matar os que não haviam sido mortos. Em uma fotografia[1], pode-se ver uma mulher indígena presa pelos pés, de cabeça para baixo, ao seu lado dois homens não-índios com facões, os quais a cortaram ao meio. Sobre esse caso, Ribeiro cita uma reportagem publicada no ano de 1968 pela revista Fatos e Fotos, do Rio de Janeiro. A descrição parece pertinente para que se note a crueldade com que os indígenas foram mortos:

 

O pequeno avião monomotor já havia feito dois rasantes sobre a aldeia e agora, mais abaixo, quase tocando com as rodas nas folhas das árvores, se aproximava fazendo grande ruído. Na maloca, os índios corriam para dentro de suas palhoças e no meio do terreiro as mulheres e crianças choravam desorientadas. De repente, uma explosão levanta palha, madeira, terra e corpo de gente. Em seguida outra explosão e o avião desaparece sobre a copa de uma grande castanheira para dar mais uma volta e sobrevoar a aldeia. Ele ganhou alguma altura e desta vez vem de pique sobre o acampamento. Com o barulho do motor não dá para se escutar o ruído dos tiros, mas em suas janelas se vê um braço de homem trepidando com o pipocar de uma metralhadora. As pessoas saem correndo das poucas casas que ainda restam e a maioria tomba a alguns metros adiante, sem alcançar o mato para se proteger. Assim foi exterminada quase uma tribo inteira de índios Cintas Largas, no Estado de Mato Grosso, em meados de 1963. Bananas de dinamite eram jogadas sobre as malocas e os índios que conseguiram sobreviver ao primeiro ataque foram alvejados a tiros de metralhadora. Ao todo, ali viviam trinta índios, mas apenas dois puderam contar essa história (Ronald Carvalho apud Ribeiro, Os índios 189-190).

 

A chacina continuou por terra, era preciso liquidar os sobreviventes. Ocorre, então, o fato que segue:

 

Após terem metralhado um grupo de índios acampados junto a um rio, os homens da expedição ouviram um choro de criança, abafado pela mão da mãe. Para os que deviam voltar na manhã seguinte com a missão cumprida, aquele pequeno ruído mostrava que o serviço não fora perfeito. Rapidamente eles acendem as lanternas e saem vasculhando o mato. Sob dois corpos crivados de balas estavam escondidas mãe e filha. Os homens que as encontraram fizeram uma festa. Dois tentavam violentar a mulher e um beliscava a garotinha que chorava, vendo a aflição da mãe. Em volta, fechando o círculo, o grupo se divertia. Nas mãos dos dois nordestinos fortes a mulher índia se debatia. Nesse instante, aproveitando um descuido, a criança libertou-se, correu em socorro da mãe e, com raiva, mordeu a perna de um dos homens. A mulher em pânico tentava cuidar da menina e, ao mesmo tempo, livrar-se dos homens que a violentavam. O homem com a perna mordida foi substituído por outro, afastou-se da índia e com ódio começou a estrangular a criança. Alguém, querendo terminar com o espetáculo paralelo que atrapalhava o primeiro, tomou a menina das mãos do seu estrangulador e lhe deu um tiro de pistola 45 na cabeça. A testa da garotinha explodiu e o sangue salpicou a roupa dos que estavam em volta. Vendo a filha morta, a mulher não resistiu e desmaiou. Indefesa nas mãos dos chacinadores, a índia foi violentada por todos e depois retalhada a facão (Ronald Carvalho apud Ribeiro, Os índios 189-190).

 

Atrocidades como esta ocorreram frequentemente nos primeiros contatos com povos indígenas, muitos dos quais desapareceram sem que se soubesse de sua existência.

As tribos que resistiam ao domínio do Estado brasileiro não poderiam ser outra coisa senão “bárbaras” e “incivilizadas”. No texto A anthropologia do Estado de São Paulo, publicado em 1907, Hermann Von Ihering aponta sua opinião sobre o que se fazer com grupos Kaingang de São Paulo, que até esse período mantinham pouco ou nenhum contato com a sociedade nacional. O autor afirma que esses índios eram pouco conhecidos, e que tudo o que se sabia sobre eles era resultado de observações feitas entre índios aldeados dos estados do Paraná e do Rio Grande do Sul. Isso se justificaria dado o fato de serem os Kaingang de São Paulo “absolutamente refratários a qualquer relação amistosa com a população brasileira, ainda quando estes estejam em companhia de indígenas que falem a sua língua”. (Ihering 211).

Os índios, de acordo ainda com o texto, fabricavam certo tipo de buzinas cujo som podia ouvir-se a grandes distâncias. Nas expedições guerreiras, principalmente, é que faziam uso dessas buzinas, que juntamente aos gritos alarmantes, assustavam os colonos domiciliados em terras próximas aos territórios indígenas. Retirando-se dos “assaltos” praticados nas redondezas de suas aldeias, os índios procuravam reter os perseguidores “deitando, escondido em meio das sãs picadas, os estrepes, feitos de pontas de osso, reunidos em maço por cera e fios, que devem ferir horrivelmente o pé da vítima que sobre eles pisar descalço” (Ihering 213-214).

Os mesmos Kaingang exterminaram a expedição do Monsenhor Claro Monteiro, destinada à exploração do rio Feio e à catequese dos índios de Bauru, sendo o mesmo sacerdote morto em 22 de maio de 1901 (Ihering 210). Os Kaingang de São Paulo não aceitavam o domínio e a catequização, eram refratários a contatos amistosos – como disse Ihering – atacavam expedições, faziam armadilhas, matavam até sacerdotes, ou seja, resistiam severamente à conquista de suas terras. Por isso, para Ihering, a única saída seria o extermínio, como nota-se em seu texto:

 

Os actuaes indios do Estado de S. Paulo não representam um elemento de trabalho e progresso. Como tambem nos outros Estados do Brazil, não se póde esperar trabalho sério e continuado dos indios civilizados e como os Caingangs selvagens são um impecilio para a colonização das regiões do sertão que habitam, parece que não ha outro meio, de que se possa lançar mão, senão o seu extermínio. A conversão dos indios não tem dado resultado satisfactório; aquelles indios que se uniram aos portuguezes immigrados, só deixaram uma influencia malefica nos habitos da população rural. E’ minha convicção de que é devido essencialmente a essas circumstancias, que o Estado de S. Paulo é obrigado a introduzir milhares de immigrantes, pois que não se póde contar, de modo efficaz e seguro, com os serviços dessa população indigena, para os trabalhos que a lavoura exige (215).

 

Assim, todo o discurso registrado pelos europeus desde os primeiros contatos com os povos nativos americanos, seguiu sendo posto em prática durante os cinco séculos subsequentes ao da chegada de Colombo e Cabral. Entendemos que a Literatura pode contribuir para revelar outras facetas da História, as quais não são reveladas pelo discurso oficial por ela difundido. Para o povo Xokleng, que vivia em um território que abarcava regiões de três estados, restou uma única Terra Indígena, no município de Ibirama (SC), onde vivem aproximadamente 1800 indígenas, tentando reconstruir a historia de um povo, sobre o qual pode-se refletir por meio da arte literária, como no poema de Lindolf Bell.

 

REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. Convenção sobre a grafia dos nomes tribais. Disponível em <http://pt.scribd.com/doc/73556272/Convencao-da-ABA-de-1953-para-grafia-de-nomes-indigenas>. Acesso em: 10 jan. 2012.

Bell, Lindolf. O código das águas. 5. ed. São Paulo: Global, 2001.

Candido, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8. ed. São Paulo: T. A Queiroz, 2000.

Clastres, Pierre. Arqueologia da violência – pesquisas de antropologia política. (Trad. Paulo Neves). São Paulo: Cosac Naify, 2011.

Ricciardi, Giovanni. Sociologia da literatura. Lisboa: Publicações Europa-América, 1971.

Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro: evolução e sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

______. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1979.

Gakran, Nanbla. Aspectos morfossintáticos da língua Laklãnõ (Xokleng) “Jê”. Campinas, 2005, 123 f. Dissertação (Mestrado em Línguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2010 – Características gerais dos indígenas. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_dos_Indigenas/pdf/Publicacao_completa.pdf>. Acesso em: 15 nov. 2012.

Santos, Silvio Coelho dos. Índios e brancos no Sul do Brasil – A dramática experiência dos Xokleng. Florianópolis: Edeme, 1973.

______. Os índios Xokleng: memória visual. Florianópolis: Ed. da UFSC; [Itajaí] : Ed. da UNIVALI, 1997.

Silva, Simoens da. A tribu Caingang. Rio de Janeiro: Alba, 1930.

Von Ihering. A Anthropologia do Estado de São Paulo. Revista do Museu Paulista, VII, p. 202-257, 1907.

[1]A fotografia pode ser vista na internet, na página: <http://www.survivalinternational.org/ultimas-noticias/9197 >. Acesso em: 08 jan. de 2014.

 

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