Canudos-conflitos além da guerra: entre o multiperspectivismo de Vargas Llosa (1981) e a mediação de Aleilton Fonseca (2009), de Adenilson de Barros de Albuquerque e Gilmei Francisco Fleck

Rinaldo de Fernandes
Universidade Federal da Paraíba
rinaldofernandes@uol.com.br

 

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Resumo

 

A resenha aborda o livro Canudos-conflitos além da guerra: entre o multiperscpectivismo de Vargas Llosa (1981) e a mediação de Aleilton Fonseca(2009), de Adenilson de Barros de Albuquerque e Gilmei Francisco Fleck, publicado em 2015. O livro trata de uma série de romances, de autores brasileiros e estrangeiros, que tematizaram a Guerra de Canudos, conflito ocorrido em 1897 no nordeste da Bahia, cuja narrativa e interpretação clássicas constam de Os sertões (1902), de Euclides da Cunha. O livro aborda mais detidamente A guerra do fim do mundo, de Vargas Llosa, e O pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca, mostrando os pontos de vista adotados pelos narradores do romances. Em A guerra do fim do mundo, que integra o Novo Romance Histórico latino-americano, há o emprego de paródia, pastiche, ironia, enfim, há a desconstrução da perspectiva histórica oficial, dessacralizando-a. O pêndulo de Euclides, por sua vez, é tomado como um romance “de mediação”, ou seja, como uma narrativa que combina ou hibridiza as características do romance histórico clássico e as desse mesmo Novo Romance Histórico latino-americano. Numa palavra, que combina/hibridiza tradição e subversão.

 

Palavras-chave

 

Vargas Llosa, Aleilton Fonseca, romance histórico, Guerra de Canudos, Euclides da Cunha.

 

Abstract

 

This is a review of Canudos-conflitos além da guerra: entre o multiperscpectivismo de Vargas Llosa (1981) e a mediação de Aleilton Fonseca(2009), by Adenilson de Barros de Albuquerque e Gilmei Francisco Fleck published on 2015. This book frames its analysis on a list of novels written by Brazilian and other Latin-American authors, whose narratives address the War of Canudos, a civil conflict that took place at the Northeast of Bahia on 1897. The first historical narrative of this conflict came from Os sertões (1902) written by Euclides da Cunha. Adenilson de Barros de Albuquerque e Gilmei Francisco Fleck’s essay book focus on A guerra do fim do mundo, by Vargas Llosa, and e O pêndulo de Euclides, by Aleilton Fonseca, both of which display different points of views regarding the War of Canudos. The first one is considered a very representative novel of the so-called New Latin-American Historical Novel, featuring parody, pastiche, irony, thus, the deconstruction and desecration of the official’s perspective on History. The second one, O pêndulo de Euclides, is regarded as a novel of mediação, that is to say, a narrative that combines or hybridize those features of the classic historical novel with the New Latin-American Historical Novel’s main characteristics, in other words, the combination of tradition and subversion.

 

Key words

 

Vargas Llosa, Aleilton Fonseca, Historical Novel, War of Canudos, Euclides da Cunha.

 

 

 

O livro Canudos-conflitos além da guerra: entre o multiperscpectivismo de Vargas Llosa (1981) e a mediação de Aleilton Fonseca(2009), de Adenilson de Barros de Albuquerque e Gilmei Francisco Fleck, publicado agora em 2015 em Curitiba, pela editora CRV, é um bom exemplo de pesquisa acadêmica que consegue atrair o leitor tanto pela clareza e fluidez da escrita como pelo teor. No caso, o teor diz respeito à Guerra de Canudos e a uma série de romances que se compuseram em torno do conflito de 1897 no nordeste da Bahia, cuja narrativa e interpretação clássicas constam de Os sertões (1902), de Euclides da Cunha.

Antes de abordar mais detidamente A guerra do fim do mundo (1981), de Vargas Llosa, e O pêndulo de Euclides (2009), de Aleilton Fonseca, os autores, num capítulo informativo, bem pesquisado, reexaminam um conjunto de romances que também enfocaram, e sob vários pontos de vista, a Guerra de Canudos. Nesse reexame dos romances históricos sobre Canudos são comentadas as seguintes obras:

1) Os jagunços, de 1898, de Afonso Arinos (o romance foi publicado sob o pseudônimo de Olívio de Barros). Nesta narrativa, ainda com claras caracteríscas do romance histórico romântico, informam os autores, “conjugam-se elementos ficcionais com a apresentação dos recentes eventos relacionados à Guerra de Canudos (1896-1897)”. Informam ainda: “Escrito sob encomenda do jornal O Comércio de São Paulo, do qual Arinos era editor desde o final de 1896, o romance teve uma tiragem muito pequena, sendo reeditado somente em 1969, na Obra completa de Afonso Arinos”. O autores acrescentam que o jornal O Comércio de São Paulo fazia oposição à recém criada república –posição, portanto, “compartilhada” por Arinos. Nota que julgo importante: o ensaísta Helmut Feldmann, no artigo intitulado “O romance Os jagunços, de Afonso Arinos, recriado por Mário Vargas Llosa em La guerra del fin del mundo” mostra que o livro de Arinos –que, no ano da Guerra de Canudos, escreveu crônicas no O Comércio de São Paulo “glorificando” o Segundo Reinado, considerado pelo cronista “a era de ouro” do Brasil– influenciou fortemente Vargas Llosa, tendo importância capital para Llosa configurar o narrador de A guerra do fim do mundo, ou seja, um narrador que toma Conselheiro como “fanático e demente” e, por extensão, os jagunços conselheiristas como “verdadeiros monstros humanos”, por uma retórica que privilegia a hipérbole, tornando-os –tanto os jagunços como o Conselheiro– caricatos ao extremo.

2) João Abade, de 1958, de João Felício dos Santos: “Esta narrativa, considerando-se o posicionamento de Carpeaux (1958), pode ser apontada como um primeiro divisor de águas entre as antecedentes leituras positivistas, ‘oficiais’, sobre os eventos canudenses, e uma história sob a perspectiva dos vencidos. João Abade é uma ficção representativa de uma ‘história vista de baixo’ […], uma visão crítica sobre Canudos que seria também desenvolvida em romances posteriores”.

3) A casca da serpente, de 1989, de José J. Veiga, por sua vez, é um romance construído “sob o signo do real maravilhoso, do realismo mágico ou do elemento fantástico”. Assim, o romance de José J. Veiga propõe “uma leitura alternativa sobre Antonio Conselheiro, apresentando-o por meio de uma configuração em grande medida modificada em comparação à ideia que dele fazem muitos escritores”. Neste romance de José J. Veiga são retomados os momentos finais da Guerra de Canudos e o Conselheiro, com a quarta expedição do exército, não morre, partindo para a construção de um novo arraial.

4) Canudos –as memórias de frei João Evangelista de Monte Marciano, de 1997, de Ayrton Marcondes: “Escrita em primeira pessoa, essa narrativa representa a versão histórico-ficcional do frei que esteve em Canudos, em 1895, com a missão de dissuadir os sertanejos sobre a aglomeração que se formava naquela localidade”. No romance, “o frei é representado como um velho à beira da morte, refletindo, entre outras coisas, sobre as causas e as consequencias da sua missão mal sucedida”.

5) Veredicto em Canudos, de 1970, de Sándor Márai. Trata-se de uma importante narrativa feita a partir da perspectiva de um romancista estrangeiro (Sándor é húngaro). Afirmam os autores: “Foi a partir da leitura da tradução inglesa do texto euclidiano que Márai resolveu contribuir […] com sua interpretação da Guerra de Canudos”. Em sua coluna na Folha de S. Paulo, Marcelo Coelho teceu, em 2002, um comentário interessante acerca deste romance. Disse o colunista que “parece faltar a Veredicto em Canudos uma fabulação que pudesse tornar menos abstrato o debate proposto”. Disse ainda, sobre a perspectiva adotada por Sándor Márai: “[…] é como se a dimensão dos eventos narrados se esvaziasse por força da imparcialidade do autor”.

6) Luzes de Paris e o fogo de Canudos, de 2006, de Angela Gutiérrez. Tido como um “jogo de armar”, este romance resulta “de uma espécie de colagem dos mais variados gêneros textuais”. Constam dele “desde os convencionais elementos da prosa até a reprodução de imagens de pinturas, esculturas e capas de livro. Grande parte do romance, entretanto, compõe-se […] de cartas escritas, principalmente pela personagem Branca, menina rica que estudou na Europa, amiga da personagem Morena, que conviveu entre os conselheiristas”.

Mas, como indicado já no próprio título, o livro de Adenilson de Barros e Gilmei Francisco estuda, de modo mais detido, da tradição de romances que enfocaram o conflito de Canudos, A guerra do fim do mundo do peruano Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa e O pêndulo de Euclides do brasileiro, professor baiano de literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, Aleilton Fonseca. Isto para mostrar, a partir dos principais procedimentos retóricos, o tipo de reinterpretação que os dois romancista propuseram da Guerra de Canudos. Como dizem os pesquisadores, nessas duas narrativas “os conflitos gerados pela questão de Canudos vão além da guerra e se estendem amplamente no espaço do discurso, dos enfrentamentos ideológicos e de tantas possibilidades que a manipulação da linguagem nos oferece”.

Assim, a sustentação teórica básica é situar, por um lado, A guerra do fim do mundo como integrante do chamado Novo Romance Histórico latino-americano, com suas modalidades de escrita que operam a paródia, o pastiche, a ironia, enfim, a desconstrução da perspectiva histórica oficial, dessacralizando-a, e, por outro, tomar O pêndulo de Euclides como um romance “de mediação”, ou seja, como uma narrativa que combina ou hibridiza as características do romance histórico clássico e as desse mesmo Novo Romance Histórico latino-americano. Numa palavra, que combina/hibridiza tradição e subversão.

Vargas Llosa aplica em A guerra do fim do mundo a sua tese do “romance total”, romance, nas palavras do próprio Llosa, que busca “uma recuperação quase total da realidade” ou “que procura descrever uma realidade em todos os níveis que a compõem”. Romance polifônico, no enredo de A guerra do fim do mundo a ênfase é dada aos pontos de vista dos vários protagonistas. Conforme os pesquisadores, no romance “percebemos abordagens ideológicas distintas em personagens que caracterizam, por exemplo, a representação da honra sertaneja (Rufino), do desejo de se chegar ao poder a qualquer preço (Epaminondas Gonçalves) e de ideias fundamentalistas (Moreira César)”. Os personagens “são descritos e representados de acordo com suas idiossincrasias e as condições culturais que os envolvem”. Cada um “defende ‘o seu lado’”. As razões da guerra, no fim, se justificam pelos “fanatismos” dos envolvidos, tanto dos representantes da república como do Conselheiro e seus liderados.

Por sua vez, O pêndulo de Euclides, conforme ainda os pesquisadores, “expõe as características históricas atuais da região e dos habitantes de Canudos à procura de respostas para um assunto que ainda não está encerrado”. Vale a pena citar um trecho do livro em que os pesquisadores indicam o “enigma de Euclides da Cunha” –ou o “choque de significados”– que teria levado Aleilton Fonseca à escrita do romance:

Em entrevista à rádio UNESP, Aleilton Fonseca afirma haver “certos vazios que a história não registra e que só a ficção pode dar conta”. Perguntado sobre a lacuna histórica que o mobilizou mais para a escrita do romance, explica ter sido “o enigma de Euclides da Cunha. Quando exatamente, em que momento de sua vida, ele tomou aquele choque de significados e começou a mudar de posição”. O enigma a que se refere Fonseca pode ser verificado se comparados, por exemplo, um trecho do artigo “A nossa vendeia” com a nota preliminar de Os sertões. No primeiro, Euclides da Cunha se refere às “hostes fanáticas do Conselheiro” e aos soldados da República talvez não percebidos “através das matas impenetráveis, coleando pelos fundos dos vales, derivando pelas escarpas íngreme das serras, os trilhos, as veredas tristes por onde passam, nesta hora, admiráveis de bravura e abnegação”. Na segunda, o mesmo autor escreve que a Guerra de Canudos “foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”

Em O pêndulo de Euclides, ademais, o narrador se identificaria profundamente com o próprio autor: “Os dois apresentam-se como intelectuais interessados em desvendar mistérios da temática canudense, viajaram ao lugar dos conflitos, construindo suas impressões e seus aprendizados”.

Enfim, em Canudos–conflitos além da guerra: entre o multiperscpectivismo de Vargas Llosa (1981) e a mediação de Aleilton Fonseca(2009), Adenilson de Barros de Albuquerque e Gilmei Francisco Fleck dão uma ótima contribuição para os estudos do romance histórico sobre Canudos.

 

 

Bibliografía

De Barros de Albuquerque, Adenilson e Gilmei Francisco Fleck. Canudos: conflitos além da guerra-entre o multiperspectivismo de Vargas Llosa (1981) e a mediação de Aleilton Fonseca (2009). Curitiba, PR Editora: CRV, 2015. 196p.

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